Dona Gertrudes tinha fama de ser bruxa. Morava sozinha n’uma casa, no fim da rua. De companhia, somente seus gatos – todos pretos. Os vizinhos comentavam que nas noites de sexta-feira, era possível ouvir gritos e uivos vindos de lá. Outros diziam que ela tinha um enorme caldeirão no meio do quintal.
Um dia, Joãozinho, o moleque mais esperto da rua, cismou de tirar à prova essa história de bruxaria. Todo cheio de si, o valentão bateu na porta.
– O que você quer aqui garoto? – respondeu Gertrudes, abrindo a porta com cara de poucos amigos
– Oi dona bruxa, quer dizer, Dona Gertrudes, eu estava precisando de um favorzinho da senhora.
– Oh menino abusado, eu não tenho nada para você não. Chispa daqui.
– Não Dona Bruxa, é coisa pouca!
– Fala rápido então.
– É que minha pipa caiu no seu quintal, será que eu posso ir lá pegar?
– Tá bom moleque, vai lá mas não demora, hein?
Mais do que depressa, o garoto entrou correndo, e foi mexendo em tudo que via pela frente. Na cristaleira, na mesa da cozinha, até o rabo do gato ele puxou. Quando chegou no quintal, ficou decepcionado. Não tinha nada lá.
Então, Dona Gertrudes apareceu, e perguntou:
– Achou o que estava procurando, moleque?
– Na verdade não, Dona Bruxa.
– Ah tá, deve ser porque está ali no quartinho. Vai lá dar uma olhada.
Quando Joãozinho abriu a porta, levou o maior susto. Havia um enorme caldeirão fumegante lá dentro. Foi aí que a bruxa entrou, trancou a porta , e disse para o menino, que já estava todo mijado de medo.
– Eu estava só esperando você chegar, para terminar meu jantar.
E n’um golpe só, jogou o atrevido dentro do caldeirão.
Autor: sergiosoaresblogger
Curare
Joaquim era filho único, de um casal de empresários riquíssimos do ramo têxtil. Desde muito novo, apresentou uma dotação acima da média, não menor que uma frieza incomum para uma criança.
Quando completou 15 anos, criou um estratagema diabólico. Descobriu em suas pesquisas, que o Curare, uma substância tóxica originária da América do Sul, quando consumido em baixa dosagem, matava aos poucos.
Aos 16, convenceu seus pais a lhe darem emancipação, com a desculpa de fazer uma viagem pela Europa. Assim que chegou na Alemanha, teve que voltar às pressas para o Brasil. Seu pai havia sofrido um mal súbito, e faleceu.
Passadas as exéquias, demonstrando preocupação com a mãe, perguntou:
-Mamãe, a senhora está tomando aquela fórmula que o Doutor Melquíades receitou?
-Claro, meu filho. Seu pai também tomava todos os dias.
Seis meses após o pai, a mãe acordou sem vida.
Agora, herdeiro de uma pequena fortuna e com 25 anos, Joaquim estava na Cote d’A’zur, noivo da herdeira de um dos reis do Petróleo do Oriente Médio. No café da manhã da amada, não faltava a fórmula do Doutor Melquíades.
Soturnos
Oswaldo tinha acabado de ser nomeado. Cidade nova, colegas novos. Aquilo o incomodava, por conta das suas dificuldades de relacionamento. Logo no primeiro dia, um choque – sua turma era problemática: os piores do ensino médio.
A primeira aula foi um caos, no entanto, uma aluna chamou sua atenção: no fundo da sala, cabelos castanhos compridos, pele muito branca, e que não interagia com a turma, apenas o olhava fixamente. Finda a aula, todos começaram a sair, e quando reparou, já tinha sumido.
No dia seguinte, com um semblante triste, a viu sentada na mesma carteira. Hora do recreio e todos correram, menos ela. Então, Oswaldo se aproximou e perguntou.
– Qual seu nome mocinha?
– Alice, respondeu a jovem.
– Reparei que você não conversa com os colegas. Posso saber o motivo?
– Não gosto de gente. Respondeu com dureza.
Aquilo o balançou, pois também não se sentia bem com as pessoas. Fim do intervalo. A aula recomeçou, mas a menina havia desaparecido. Então, foi até a Secretaria, onde descobriu que não havia nenhuma Alice matriculada em sua turma. De tanto insistir, a secretária disse que deveria ser a aluna que tinha se suicidado. Mas esse assunto era proibido dentro do colégio.
Foi para casa com aquela história na cabeça. Buscou nos jornais, e descobriu que Alice tinha se matado por causa de um professor que abusou de sua inocência, e depois a desprezou. Por isso se cortou dentro do banheiro.
No outro dia, quando entrou na classe, lá estava ela novamente. Se aproximou e disse:
– Já sei quem é você, e qual a sua história. Só queria entender porquê ainda está aqui.
– Estou aqui por sua causa. Você é a única pessoa em quem sinto confiança.
Depois disso, Alice nunca mais foi vista. Oswaldo também sumiu. Seu corpo foi encontrado dentro do banheiro de casa, com os pulsos cortados. Agora, ele e Alice vagam pelas sombras, como um casal estranhamente soturno, e perfeito.
Quebra de acordo
Eram um trisal – Amanda, Edson, Gabriela – que faziam as maiores loucuras juntos. Até que um dia, Amanda resolveu mudar a geometria da relação. O triângulo deixou de ser perfeito.
Signos
Com sua bocarra de Leão, devorou a garotinha que era de Virgem.
A subida
Aquilo parecia não acabar nunca, quando o cume estava próximo, uma pedra solta o levava ao chão. Então, ela surgiu e juntos venceram os desafios, alcançando o cume da montanha.
Coincidências
Pimenta era o sujeito mais sem sal da repartição, que só era visto na hora de puxar saco do chefe. Até que um dia, a repartição pegou fogo com todos dentro. Menos um – o Pimenta.
Verborragia
Tudo começou com um farol, que me seduziu com sua luz. Então, um chapeleiro maluco me ofereceu 3 desejos, e eu acreditei. Era embuste. Agora não consigo mais parar de vomitar palavras.
Sítio do Picapau Amarelo
Seu Anastácio era conhecido na vila como um grande contador de causos, mas também um bom mentiroso, que se gabava de ter amizade com todas as criaturas da mata.
Um dia, os agentes do Programa Saúde da Família foram visitá-lo, para ver como andava sua saúde. Chegando na tapera simples onde morava, começaram o atendimento quando, de repente, um moleque aparece na janela:
-Bença Tio Anastácio.
-Deus te abençoe, meu fio.
Curioso, o médico pergunta:
-Não sabia que o senhor tinha sobrinho, Seu Anastácio.
-Tenho não Dotor. Sô sozinho nesse mundo. Eu, meu Pai Oxóssi e meus amigo da mata.
Com cara de deboche, o.medico apenas riu de lado.
-Tio, o qui que eles tão fazeno com ocê?
-Nada não fio, precisa percupa não.
-Tio, posso pegá seu fogo prá acendê meu pito?
-Pode fio, pega ali no fogão de lenha.
Então o médico, a enfermeira e a agente comunitária levaram o maior susto. Entrou pela porta um moleque de xort, sem camisa, com uma perna só, um cachimbo n’uma mão, e um gorro vermelho na outra. Pegou a brasa, acendeu o cachimbo, e saiu pitando.
-Intão bença Tio. Ah Tio, o Tatá mandô avisá que despois que iscurecê, ele vem cá proseá com o sinhô.
-Tá bão fio, vem ocê tumem. Respondeu o velho Anastácio.
De queixo caído, e tremendo de medo, o médico encerrou o atendimento, e caiu no trecho junto com sua equipe, antes que aparecesse por ali mais algum personagem do Sítio do Pica-pau Amarelo.
Síndrome de Cinderela
Giovanna foi um bebê muito esperado, e desejado. Cláudio e Patrícia, seus pais, tentaram por três vezes, até que finalmente deu certo.
Ela era uma criança linda, parecia saída de um conto de fadas. A pele branca como as nuvens, contrastava com os olhos azuis turquesa, e a boca vermelha como um rubi. Seus cabelos de tão loiros, pareciam fios de ouro – uma bebê perfeita.
Até que, com 30 dias, uma anomalia no coração a levou de volta ao hospital. Ficou internada por dois meses, até que uma junta médica, formada especialmente para cuidar de seu caso, deu o diagnóstico. Giovanna sofria de uma doença muito rara, causada por uma alteração cromossômica, que atinge um indivíduo por milhão, e faz com que o coração tenha um prazo determinado de funcionamento. Atingido esse limite, simplesmente para de bater. Por conta disso, a doença foi denominada Síndrome de Cinderela. No caso da pequena, os médicos estimaram em 15 anos, seu tempo máximo de vida.
Aquela notícia abalou profundamente a família, que quase sucumbiu ao desespero. Mas por muito amor à sua princesa, decidiram que fariam de tudo para que ela fosse feliz, enquanto tivesse vida. E assim aconteceu.
A menina cresceu saudável, apesar da Síndrome, e foi cercada de muito amor. Giovanna era linda, doce e parecia ter o poder de encantar a todos. Na escola, cativou professores e colegas, desde o infantil até o fundamental, mas então chegou a data tão temida.
Perto de completar 15 anos, a garota escolheu Cinderela como tema de sua festa de debutante. Tudo foi feito do jeito que ela pediu. Na noite do baile estava linda, parecia realmente uma princesa. Bailou com seu pai e seus amigos, e parecia flutuar no salão . Quando o relógio bateu meia noite, a menina se transformou em moça, e dançou sua última valsa.
Naquela noite, após completar sua décima quinta primavera, Giovanna foi dormir, para nunca mais acordar.