Amor di vero

Todos os dias está me esperando, não importa se cedo ou tarde, de noite ou de dia. Na hora da doença e da dor, sua presença é constante. Na alegria e na comemoração, não existe quem vibre mais junto de mim. Não importa se a mesa é farta, ou se nela tudo falta. Partilha o pouco sem nada reclamar, da mesma forma que saboreia o filé mais suculento. Não há nesse mundo amor mais leal e verdadeiro, do que um amor peludo e de quatro patas como o seu, Bob.

O último beijo

Durante os quatro dias de carnaval, fez tudo que seus desejos mais secretos sempre esconderam. Se realizou plenamente, sentiu prazer como nunca havia sentido. Agora, a folia acabou. O último beijo marcava o fim daquela aventura. Era hora de despir-se da personagem. Tinha que voltar a cumprir seu papel – pai de família respeitável, que acompanha a mulher e as filhas na missa de cinzas, na Catedral.

O miolo

Santana do Paraíso era uma dessas cidades do interior, onde o carnaval ainda guardava tradições. Uma delas era a mulinha – uma cabeça de boi montada em um corpo de madeira, coberto com um pano, onde o miolo comandava a brincadeira. A mais famosa era a do Seu Jorge. Com mais de trinta carnavais de história, naquele ano ela não ia sair, pois ele tinha falecido.
Quando começou a folia, quem surgiu no meio da praça? A mulinha do Seu Jorge. Durante os quatro dias de festa, ela deu pinote, correu atrás de toda a gente. Na missa de Cinzas, o assunto não era outro. Afinal, se não foi o Seu Jorge, quem teria sido o miolo então?
O que todo mundo acreditava era que Adolfo, seu único filho, que morava na capital, teria vindo para a cidade. Assim que o moço entrou na Igreja, Dona Terezinha, a beata mais fofoqueira da cidade, foi logo se adiantando em dizer:
-Que bonita sua homenagem Adolfo. Veio para Santana no carnaval, só para manter a tradição de seu pai.
Sem entender nada, o rapaz respondeu:
-Olha Dona Terezinha, não sei de qual tradição a senhora está falando, mas vim sim resolver algumas coisas do meu pai, na verdade acabei de chegar aqui.
Boquiaberta, a fofoqueira logo espalhou na missa que a mulinha estava possuída pela alma do seu antigo dono.
Depois disso, dizia o povo, que em toda quarta-feira de cinzas era possível ver ela no alto do pasto, correndo e dando pinote.

O último samba

José Felizberto da Silveira. Essa era sua alcunha, mas seu nome de ofício, aquele que lhe rendeu fama e notoriedade, era “Zé do apito” – compositor e puxador da União de Vila Madalena, escola do grupo especial, buscando seu pentacampeonato na avenida.
No esquenta, enquanto a bateria afinava a mão, o sambista deu seu último grito. Um mal súbito levou José. Mas o samba não pode parar, a União tinha uma missão a cumprir.
Então, os baluartes da Velha Guarda pegaram seu corpo pelos braços, e levaram o bacharel para o último desfile na avenida.
Sob aplausos, muito choro e gritos de campeã, a escola passou perfeita em todos os quesitos. Quando chegou na dispersão, com o campeonato garantido, a agremiação seguiu em cortejo solene, levando o menestrel de volta para casa – a quadra da escola – onde iriam comemorar o título, e beber a alma do “Zé do apito” – o maior compositor e puxador que o samba já conheceu.

A troça

Nas folias de Momo, as pessoas se transformam. Olavo era pura empolgação, quando chegou no bloco fantasiado de Thor. Com cabeleira, capa vermelha e o poderoso martelo, estava se achando um nórdico raiz.

Foi aí que apareceu a Mulher-Maravilha, e logo rolou uma química dos deuses. No meio da fuzarca, a coisa esquentou. Na primeira quebrada pularam fora da pipoca, e caíram num beco.

Na hora do “vamo vê”, cheio de vontade e com o martelo em riste, Olavo levou um baita susto, e saiu correndo enrolado na sua capa. Isso porque o laço mágico da Mulher-Maravilha estava armado, e ele era muito maior do que o seu martelo.

Acerto de contas

Retornando da viagem, chego em casa e abro a caixa de correio – está vazia. Subo as escadas, coloco a chave na porta, mas ela estava destrancada. Giro a maçaneta, e levo um baita susto – sentado no sofá da sala, baforando seu cigarro, lá estava ele:

– Você? Aqui? Mas como?

– Qual o motivo da surpresa? E por que não deveria estar?

– Porque deixei você lá, morto e enterrado.

Assustada, acendo as luzes. Minhas mãos suam frio, meu coração está acelerado e meu corpo estremecido.

-Meu Deus!! O que está acontecendo?

Então ele se levanta, e vem em minha direção com o dedo em riste:

– Chega dessa lengalenga! Eu nunca vou deixar você em paz. Será que não entendeu isso ainda?

Desesperada, começo a gritar pedindo socorro, enquanto as lágrimas escorrem do meu rosto.

– O que você quer de mim, seu desgraçado?

– O que eu quero? Responde gargalhando. – Cobrar a sua fatura, e olha que ela está bem recheada. Você achou mesmo que ia escapar ilesa? Impune?

– Eu não fiz nada. Sou inocente! Respondo assustada.

– Ora minha querida, pra cima de moi? Sou sua melhor e pior parte, e agora chegou o momento de acertarmos os ponteiros.

– Não!! Eu deixei você pra trás! Quando fugi daquele lugar, passei uma borracha em tudo que tinha feito.

– Ninguém foge do próprio passado, menina. Ele sempre torna a voltar. Anda, olha em volta!

Caído no chão, vejo um corpo ensanguentado. Me aproximo. O corpo inerte, e morto, era o meu.