Dia desses, passando pela pacata Prosperidade, parei para tomar um café na venda do Joaquim, octogenário de muita prosa, e riso solto, natural de Morro Grande, terra da Pedra do Paraibanha, que veio se abancar por esses lados há mais de vinte anos.
Ao entrar na venda, sentei numa cadeira, e, enquanto esperava o café, reparei numa roda de conversa ao lado.. Faziam parte dela o Doutor médico, o pai da pequena Maria e até o Juiz, mas quem comandava o assunto mesmo era o Joaquim, que tinha tanta lábia, quanto idade, e não perdia a chance de contar suas histórias.
~ Pois é meu povo, muito antes desurgirem essas histórias de grampo telefônico, lá em Morro Grande, já havia acontecido algoparecido. E continua contando.
~ Dona Elisabete, a telefonista da central telefônica, de tão curiosa e fofoqueira que era, tinha o péssimo hábito deficar escutando as conversas dos outros, enquanto falavam ao telefone. Como isso já era sabido por todos, volta e meia um ou outro dava uma carraspana na velha bisbilhoteira.
~ Havia chegado ao lugar, um moço vindo da capital, de aparência bonita, mas caráter duvidoso, que resolveu tirar vantagem daquela gente simples, entrando pra política.
E continuou a prosa.
~ Moço da cidade, de estampa fina, e fala empombada, logo se tornou Presidente da Câmara, se ajuntando com a pior espécie depolíticos da região, mas sempre pensando no próprio bolso.
~ À época, o Prefeito era o Drº Bento Ribeiro, médico de família tradicional, muito humano e preocupado com o bem-estar dos seus munícipes. Desde que assumira, Morro Grande havia começado a melhorar – saúde, educação e segurança eram suas metas, e por elas trabalhava dia e noite sem cessar.
~ O Presidente da Câmara, que não eraafeito ao dirigente municipal (por questões óbvias), passou a tramar, com a politicalha que o cercava, uma forma de tirar Bento do Paço Municipal.
Parando para dar uma golada na branquinha que estava sobre a mesa, Joaquim prosseguiu:
~ Até tocaia pro médico aprontaram. Dizem que quando ele estava voltando de um atendimento na zona rural, alguém descarregou um tambor inteiro de 38 em cima do carro do homem,que só não morreu graças a uma medalhinhade Santo Expedito, que carregava junto ao peito, e parou a bala certeira.
~ Com a tramóia fracassada, o político safado decidiu acabar com a boa imagem e reputação que o prefeito tinha na cidade. Mas para isso precisava de alguém que fosse conhecido do povo, e não tivesse escrúpulo para aceitar tal mandado.
~ Dona Elisabete, solteirona e encalhada, fofoqueira confessa, era a pessoa ideal para espalhar a semente do mal, destruindo assim a reputação do bom médico.Pra convencer a futriqueira, o mau caráter investiu com gracejos e agrados pra cima da dona, que logo se derreteu entregando muito mais do que a boa vontade em participar do conluio, amasiando-se com o canalha.
Mais uma pausa, e mais um gole, Plateia em silêncio acompanhava atenta, e eu também.
~ O plano era o seguinte: como todos sabiam que a telefonista tinha o péssimo hábito de escutar as conversas alheias, ela iria espalhar aos quatro cantos que havia escutado, por mais de uma vez, o Prefeito combinando com os fornecedores da merenda escolar, uma rachadinha para engordar seu bolso. E disse mais, que ouvira também ele dizendo que o atentado sofrido havia sido uma armação, para incriminar seu desafeto político, o Presidente da Câmara.
~ A história se arrastou igual rastilho de pólvora, e aproveitando-se do furdunço causado, o empestilento político deitou a fazer discurso em praça pública, chamando Bento dos mais torpes nomes, iniciando, assim, um levante junto à população para tirá-lo do Paço Municipal.
~ Chegou então à cidade, enviado pela capital para investigar o ocorrido, o Drº Antônio Pavão, Delegado de Polícia famoso na região, por nunca haver deixado de solucionar um caso. Assim que foram iniciados os processos investigatórios, não tardou para que o fio da meada aparecesse, e a tramóia fosse descoberta.
~ Chamada às falas, Dona Elisabete, entregou o amante, que foi acusado e preso por tentativa de homicídio, desvio de dinheiro público, associação criminosa e danos morais, por ter tentado manchar a honra do honesto Prefeito.
Estupefata a audiência, o intrigado Juiz perguntou ao vendeiro o que havia acontecido com a telefonista futriqueira.
Então, o ensabichado Joaquim, respondeu com uma risada, e outro gole.
~ Sumiu. Ninguém nunca mais viu a dona em Morro Grande. A última notícia que se teve dela é que teria arrumado um outro emprego de telefonista, só que lá pros lados do Planalto Central.