O homem da meia-noite

Todos os dias, quando o relógio marcava meia-noite, a rua da Alameda ficava totalmente deserta. Casas fechadas, luzes apagadas. Ninguém se atrevia a olhar pela fresta da janela, e o motivo não era o cemitério que ficava no centro da rua, mas sim uma figura sinistra que vestia roupa escura, usava um chapéu preto de aba longa impedindo de ver seu rosto, e calçava sapatos que se faziam ouvir em todo o canto, por causa do som que seus saltos produziam. Até o minuto antes do sol acordar, ele rondava o local de cima a baixo.

Até que algo assustador aconteceu. Assim que o relógio virou os ponteiros, marcando o início do dia de Finados, o céu se encheu de raios, que estalavam sobre o cemitério, mas sem cair uma gota sequer de chuva. Pior foi o que veio depois. As almas pecadoras se levantaram das sepulturas, e seguiram em uma procissão macabra de mortos-vivos, invadindo as casas e aterrorizando a vizinhança. Desesperados, os moradores começaram a gritar por socorro.

Nesse momento, o homem da meia-noite se transfigurou em cem iguais a ele,, e seus múltiplos trataram de buscá-los um a um, garantindo que não se levantassem mais de suas sepulturas. Depois desse episódio, todos naquela rua não tiveram mais medo, pois entenderam que ele era o guardião do cemitério, encarregado de proteger a memória daqueles que encontraram a luz, e manter afastados os caídos, que cumpriam penitência nas sombras umbralinas do inferno.

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