Catarina era uma médica jovem, e muito bem sucedida na carreira. Adepta da agamia, teve relacionamentos, mas se casar nunca foi uma opção. Ser mãe, pelo contrário, era um desejo que a boa condição financeira lhe proporcionou. Fora do país, contratou um banco de sêmen, onde fez uma escolha minuciosa do doador. Alguns meses depois nascia Lucas – seu herdeiro e maior sonho realizado.
Graças à terapia genética, o menino era lindo – perfeito em todos os detalhes, e muito saudável. Mas tudo mudou quando a criança começou a falar. Sempre que ficava sozinho, o menino travava longas conversações com um amigo imaginário. Tratando como uma coisa natural, um dia ela lhe perguntou:
– Filho qual é o nome do seu amigo imaginário?
– Thomas mamãe, ele falou que gosta muito de mim.
Sem dar maior importância, deixou o tempo passar. Contudo, as coisas não mudaram, e agora já na fase escolar, começou a virar um problema a ponto de ser chamada pelas professoras. Clinicamente ela sabia o que garoto não tinha nada. Fez todos os exames que a medicina poderia oferecer e nada foi encontrado, até que a babá da criança sugeriu que poderia ser coisa do outro mundo. Muito católica, decidiu procurar o padre da sua paróquia, para pedir um aconselhamento.
– Padre João, boa tarde. Preciso falar com o senhor.
– Boa tarde minha filha, vamos até a sacristia para conversarmos.
Ela contou ao pároco toda a história. Do nascimento de Lucas até as conversas com o amigo imaginário, que achando cessariam com o tempo, vinham persistindo desde então. Muito calmo e sereno, ele assim lhe aconselhou.
– Olha minha filha, isso muito provavelmente é coisa de criança, normalmente até os sete anos deverá cessar, e ele nem vai se lembrar do tal amigo. Como ele já está com cinco, é só ter um pouco mais de paciência.
– Porém, caso surja algum fato novo, ou você perceba alguma situação que os coloque em perigo, vou lhe dar uma arma para segurança de ambos.
O bom cura foi até o interior da igreja, e voltou com uma pequena caixa. Dentro dela, um terço de São Bento.
– Catarina, sempre que precisamos empreender uma batalha contra o mundo espiritual, recorremos a São Bento. Essa é uma relíquia abençoada e muito poderosa, tenha ela sempre por perto, e não hesite em usar caso precise proteger a você, ou ao seu filho.
Confortada pelas palavras do padre, mas pensativa se algum dia teria realmente que usar a arma benta, foi para casa acreditando que aquilo iria acabar, e Lucas ficaria bem. Mas assim que entrou, seu coração quase saltou do peito – o menino estava em pé no beiral da sacada do apartamento. Para não o assustar, chegou lentamente e perguntou:
– Filho, o que você está fazendo aí? Você sabe que é perigoso!
– Eu sei mamãe, mas o Thomas está aqui comigo, e falou que se eu cair ele vai me segurar.
Antes que o pior acontecesse, ela o agarrou pelas pernas, e levou para dentro da sala. Nesse instante, os móveis começaram a tremer, e uma voz raivosa de mulher gritou:
– Não, sua vadia. Ele é meu, não vou permitir que o tirem de mim outra vez!
Então, tudo em volta começou a pegar fogo. Desesperada, Catarina tirou da bolsa o terço, protegeu o filho com o próprio corpo, e começou a rezar pedindo proteção.
Não se passou nem um segundo, e uma grande luz branca envolveu a mãe e a criança – tudo serenou. Não havia mais fogo, nem sinal da entidade malévola. Com os olhos lacrimejantes, ela pegou o menino no colo, e o levou para o quarto onde adormeceu, e quando acordou não se lembrava de nada que tinha acontecido. Depois disso, nunca mais conversou com o amigo imaginário.
Catarina passou a trazer a relíquia abençoada sempre junto do peito, e pediu ao Padre João que consagrasse a criança a São Bento, o santo que não tinha medo do demônio, pois uma sensação dentro do coração de mãe, he dizia que aquela história não havia terminado ali, e seu filho ainda corria perigo.