Janete era a quinta geração de mulheres daquela família., todas com um traço em comum, que virou a marca daquele matriarcado,- personalidade forte e independentes, que tinham nos homens apenas reprodutores descartáveis, como zangões na colmeia.
Ao completar 18 anos, recebeu de sua mãe a louça branca da família – uma grande tigela de cerâmica amarelada pelo tempo, que guardava as marcas de sucessão das gerações.
~ Filha guarda isso com você, com todo cuidado. Na hora certa, você vai saber o que fazer.
Sem entender bem o porquê, mas com a certeza de que era algo importante, apenas consentiu com a cabeça.
O tempo passou, a moça virou uma mulher que conheceu seu primeiro e definitivo amor. A paixão por Antônio foi tão arrebatadora, que entre o casamento e o nascimento do primeiro filho, não se passaram 12 meses – nasceu José.
Ainda no hospital, a mãe disse a Janete:
~ Minha menina, assim que sair do hospital você vai ter que cumprir uma demanda, para manter a força de nossa família.
~Tá bom mãe, mas o que eu tenho que fazer?
~Na hora vou te explicar, mas saiba que é uma obrigação da qual você não poderá fugir!
Na emoção da chegada do primeiro filho, eia deu pouca atenção às palavras da mãe
Ao chegar em casa, Antônio já tinha deixado tudo arrumado – o quarto decorado todo em azul, na porta o nome da criança, tudo feito com muito carinho.
Assim que a sogra chegou, mandou que o rapaz saísse do quarto, e a deixasse sozinha com a filha e o neto. Achando uma preocupação normal de avó, o rapaz saiu, e encostou a porta
~ Então minha filha, desde a primeira geração, nossa família foi forjada por mulheres guerreiras, que não se deixaram subjugar pela vontade de nenhum homem. E foi isso que nos trouxe até aqui. Mas com um preço e uma consequência. O primogênito homem de cada geração deve ser entregue em sacrifício à nossa Deusa mãe, Morrigan.
~ Espera aí mãe, que história é essa de sacrifício?
~ A louça branca que lhe dei, é um objeto cerimonial sagrado, que deve ser cheia com água, alecrim e sálvia, e o bebê submerso até não ter mais vida.
~ O quê? Eu nunca vou sacrificar meu filho.
Antônio que escutava por detrás da porta, entrou nervoso gritando:
~ Ninguém vai matar meu filho , sua bruxa louca.
Então, ele pegou a bacia de louça branca, e a atirou contra a parede, quebrando em pedaços.
~ Não, seu desgraçado! Gritou a mulher em fúria.
~ Vou acabar com você e com essa criança.
A mulher sacou um punhal, e foi para cima da criança. No mesmo instante, o rapaz entrou na frente tomando a lâmina das mãos da sogra, e perfurou seu peito.
~ Vocês vão pagar por isso. Nós os acharemos, e terminaremos o ritual que essa ingrata da minha filha não teve coragem de fazer.
Essas foram suas últimas palavras. Antônio pegou a mulher e seu filho e fugiram. Desde então, vivem mudando de endereço, temendo que a ameaça da sogra se cumpra, e o Clã das Morrigan venha cumprir a ameaça da mãe de Janete.