Passa Vento era uma daquelas cidades do interior de Minas onde tudo andava devagar, e os compromissos eram marcados pelo sino da Matriz, que badalava avisando aos crentes sobre a missa, o velório e até quando era hora de almoçar, ao meio dia.
Por lá apareceu certa vez, um tal de Zé canarinho, um mulato de pouca instrução, riso solto e muita simpatia. De onde ele veio, como chegou à cidade, ninguém sabia dizer. Mas de tão boa gente que era, ganhou a confiança de todos, e o padre o deixou morar em um quartinho nos fundos da igreja, onde cuidava da limpeza do adro, e dos jardins que envolviam o prédio, em troca da moradia.
Se é verdade que os animais pressentem quando uma pessoa tem bom coração, essa pessoa deve ter sido o Zé. E não estou falando aqui de cachorro ou gato não. Segundo contam os mais velhos, todos os dias ele sentava no banco da praça em frente à Matriz, depois que acabava a missa das sete, espalhava alpiste nas mãos e na cabeça, e um a um iam chegando canarinhos da terra para comer sua merenda.
Num instante, o Zé deixava de ser moreno, para ficar todo pintado de amarelo. E como prova de confiança, ainda seguia andando praça afora, com os bichinhos empuleirados no seu corpo. O mesmo ritual era repetido todas as tardes, quando o sol se preparava para dormir.
Um dia, enquanto alimentava seus amigos sentado no banco, fechou os olhos para nunca mais acordar. Naquele instante, uma revoada de canários desceu do céu, e pelo bico levaram o homem de volta para aquele lugar onde gente de bem, que ama os animais, merece encontrar o repouso eterno.