Santana do Livramento é uma cidadela cuja história remonta os tempos do Brasil Colônia. Com pouco mais de 1.000 habitantes, o lugarejo sobrevive do trabalho na zona rural, onde fazendas centenárias ainda guardam as lembranças de um período, onde terra e ouro eram uma coisa só.
Com apenas uma praça e uma Igreja, o monumento histórico mais importante da cidade é o Chafariz de Santana. Uma estrutura em pedra sabão com a imagem da Santa no topo, com dimensões desproporcionais para o tamanho da cidade, que guarda debaixo da terra a lenda do muladeiro Salastiel.
Salastiel era um português que veio fugido para o Brasil, e fez dinheiro com sua tropa de animais. Em um tempo onde estrada era caminho, e transporte era no lombo, as mulas cuidavam de levar desde suprimentos, até materiais pesados para construção, e foi assim que essa história começou.
Nos idos do século XVIII, aquela região ainda era próspera pelo número de fazendas cafeeiras, mas também pelo barranco do Livramento, uma corredeira de onde juram saiu mais ouro do que caberia em toda Ouro Preto e Diamantina juntas. O homem mais rico era o Barão de Caldas Novas, um comerciante que se casou com a filha de um nobre da corte de D. João. Com a morte do sogro, comprou o título de Barão, e assumiu suas terras e fortuna.
Devoto de Santana, e em homenagem à sua esposa, a Senhora Ana de Magalhães e Aviz, mandou que fosse construído, no centro da vila que se formara em torno das fazendas, o maior chafariz daquela Sesmaria, onde tropas pudessem dar de beber às suas montarias. Para tal empreitada, ordenou que se contratasse o muladeiro mais famoso da região, o português Salastiel, que buscaria as pedras que formariam a construção, e a imagem de Santana, encomendada a um mestre artesão de Mariana.
O que ninguém imaginava era que por detrás de toda aquela devoção, existia um motivo muito menos religioso para tal demanda. O barranco do Livramento passava, em boa parte, dentro de suas terras, e como o ouro por lá era farto, colocava os escravos mais debilitados para fazer a peneira do metal, de tal forma que o cansaço, e a exposição contínua ao sol e à água os levassem a vida, protegendo assim o seu segredo.
Ocorre que o volume de metal precioso retirado ficou tão grande, que guardá-lo dentro de casa se tornaria perigoso demais, por isso o Barão teve a ideia de construir um Chafariz de tamanho monumental, onde debaixo da devoção à Santana e das pedras, seu tesouro pudesse ficar preservado, e protegido dos saqueadores.
Logo que entregou a primeira carga para a construção, Salastiel descobriu toda a trama do nobre, através de uma negrinha com quem se enrabichou. Por isso, tratou de subornar os homens que faziam a obra, com a promessa de partilhar o tesouro, para que trocassem os sacos com o minério dourado, por terra preta e cascalho do barranco. E assim foi feito. A cada remessa de pedras entregue, as mulas voltavam carregadas com o ouro que iria para o buraco. Enquanto isso, o Barão de Caldas Novas que se achava tão ardiloso, tornava-se cada vez menos rico.
Na última viagem, quando trouxe a Imagem de Santana de Mariana, como prova de gratidão, foi convidado pelo nobre para acompanhar a instalação solene da Santa, com a benção de um bispo que veio da Capital somente para esse fim. E ao final, ainda recebeu duas moedas de ouro, como pagamento pelos serviços prestados.
Agradecido, subiu em sua mula e saiu rindo do patrão que, se achando tão esperto, guardou debaixo daquele monte de pedras, uma fortuna em sacos de terra preta e suja. Quanto a ele, dizem que Salastiel comprou propriedades lá para as bandas de Goiás, e o título de Conde do Livramento – tornando-se um dos homens mais ricos daquela região.