A pequena cidade de Miraflores acordou apavorada. Mais uma jovem tinha sido morta durante a noite. O modus operandi do assassino foi o mesmo. Escolheu outra universitária jovem, branca, de cabelos castanhos longos, e que morava sozinha. No espelho do banheiro, um número escrito com sangue.
A polícia já tratava o caso como um crime em série, já que essa era a quinta vítima em apenas dois meses. Por Miraflores ser uma cidade dormitório, ao lado do Campus de um grande centro universitário, o pânico se instalou no município. O próprio prefeito pediu a ajuda do Governo Central, pois o efetivo policial era pequeno, e não havia encontrado pista sequer que levasse a um suspeito.
Foi então que chegou à cidade a inspetora Claudete. Uma investigadora com 20 anos de experiência, que já havia desvendado mais de 10 casos de serial killers. Claudete era uma mulher de meia idade, pouca estatura, mas muita perspicácia. Antes de entrar para a polícia, já era formada em Direito e em Psicologia, tendo se especializado na área forense. Seu hobby era estudar as investigações de crimes famosos, o que lhe rendeu uma habilidade incomum – enxergar a cena do crime, com o olhar do assassino.
-Bom dia. Inspetora Claudete. Disse ao se apresentar no Paço Municipal.
-Ah, sim, o prefeito já lhe aguardava.
Ao entrar no gabinete, já estavam lá o comandante do destacamento policial, o juiz da comarca, além do próprio prefeito.
– Prazer em recebê-la inspetora. Seus superiores me avisaram de sua chegada.
– Pois bem senhores – disse secamente cortando o chefe do executivo. Se há interesse em desvendar os crimes, teremos que agir rápido, e deixar de lado os rapapés. Existe alguma pista que possa ajudar a desvendar o caso?
-Bom dia inspetora, Sargento Meireles, comandante do destacamento. Não, não há. Desde o primeiro acontecido, temos buscado alguma informação que levasse ao paradeiro do criminoso, mas sem sucesso até aqui.
-Ok, pelo que li nos relatórios, o assassino deixa sua marca na cena do crime, correto? No espelho do banheiro, não é isso?
-Sim inspetora, ele escreve um número com sangue. Que não sabemos de quem é, porque não encontramos vestígio em nenhuma das cenas dos crimes.
-Então ele quer ser encontrado e reconhecido.
-Como assim? Perguntou intrigado o prefeito.
-Ora meus caros, esse número é a assinatura do assassino. O sangue certamente é das vítimas, e ele sabe que a sua digital pode ser extraída dele. Isso foi feito, não foi?
Os presentes na sala entreolharam-se, e perguntaram ao Sargento:
-Foi feito, não foi Meireles? Perguntou o juiz.
-Na verdade, não Meritíssimo.
Nitidamente irritada, a inspetora interrompeu a conversa:
-A cena do último crime está preservada?
-Sim, o apartamento foi fechado e ninguém teve acesso, desde então.
-Me leve até lá agora, Sargento.
Ao chegar no local, a inspetora foi direto para o banheiro, onde ainda havia no espelho o número cinco gravado com sangue. Logo de imediato, recolheu a digital, e mandou que a enviassem para o laboratório.
Então saiu, e voltou para o quarto.
-A cama está do jeito que vocês encontraram?
-Sim, inspetora. Sem marca alguma de sangue, apenas o edredom levantado.
Para espanto dos policiais, Claudete se deitou, puxou o edredom e fechou os olhos.
-A vítima estava dormindo, e foi sedada com formol. Por isso não há sinais de reação, ou luta com o assassino.
-Desculpe a pergunta inspetora, mas como a senhora descobriu tudo isso? – perguntou o desconfiado Meireles.
-Ora homem, se você acabou de me dizer que a cena está preservada, é lógico pensar que não houve reação. Quanto a estar sedada, ainda há cheiro de formol no travesseiro, mas imagino que vocês já sabiam disso, não é mesmo?
-Claro, inspetora. Está tudo registrado no relatório, não é Cabo Souza?
-Sim, senhor Sargento – respondeu o subordinado sem nenhuma convicção.
-Tá, tá. Vocês encontraram o corpo dentro do box, no banheiro, não é isso?
– Sim inspetora, ela estava deitada. Não havia sangue, apenas sinais de esganadura.
-Muito bem Sargento, então se o número foi escrito com sangue, como vocês me explicam isso?
-Na verdade, não temos explicação, disse desconcertado o comandante do destacamento.
Sem acreditar em tamanha incompetência, a impaciente inspetora, perguntou:
-Vocês ao menos descobriram de que forma o assassino entrou no quarto?
-Ah, isso sim inspetora. A porta foi forçada, com certeza com uma chave de fenda.
-Tudo bem senhores, encerramos por aqui. O corpo ainda está no necrotério?
-Sim inspetora, não conseguimos localizar os familiares ainda.
– Me levem até lá, rápido.
Chegando no IML, logo de imediato Claudete buscou as mãos da vítima. Então chamou o Meireles.
-Sargento, vocês não repararam que a vítima está sem uma das unhas? Que certamente foi arrancada, e daí veio o sangue para a assinatura no espelho?
Ruborizado, o policial ficou mais uma vez sem resposta.
-Pelo amor de Deus, quer dizer que vocês também não repararam isso nos outros corpos, imagino?
O silêncio do homem, entregou as falhas na investigação.
-Antes que eu faça uma besteira aqui, vou-me embora para o hotel, amanhã bem cedo retomo as investigações.
No meio da madrugada o telefone do quarto tocou – era o prefeito.
-Ele atacou de novo.
Rapidamente, a inspetora se trocou, e desceu para encontrar a viatura, que já a aguardava. No mesmo prédio do último assassinato, ela encontrou a porta arrombada. Mas dessa vez o assassino não teve tanta sorte. Houve luta corporal, os vizinhos ouviram gritos, e a polícia chegou antes que ele pudesse consumar o ato. Então, o criminoso fugiu pela sacada.
Ainda desacordada, a vítima recebia os primeiros atendimentos pelo serviço médico. Enquanto isso, Claudete analisava cada detalhe, até que alguma coisa no chão lhe chamou a atenção – um chaveiro. Sem alarde, o pegou com uma pinça, e colocou dentro de um saco plástico. Devido à gravidade dos ferimentos, a vítima teve que ser removida para o hospital. Por isso, a identificação do criminoso não poderia ser feita naquele momento.
Na manhã seguinte, o resultado da análise do sangue chegou no destacamento. As digitais eram de Cláudio de Deus Silva, moreno, 30 anos, natural da Paraíba. Com o nome do criminoso em mãos, bastaria agora prendê-lo. O problema é que Miraflores era uma cidade muito pequena, onde todos se conheciam, por esse motivo não levou muito tempo para se descobrir que não havia ninguém com esse nome, e características, na cidade. Buscando no banco de dados da polícia, nada foi encontrado também.
Sem novas pistas, a inspetora lembrou da chave que havia encontrado no chão do quarto. Era de um armário – no chaveiro uma sigla UFVG. No mesmo instante, chamou o reforço, avisou o prefeito e o juiz, e partiu em busca do assassino. Chegando no local, o campus da Universidade Federal de Volta Grande, pediu que a levassem ao vestiário dos funcionários.
Ao encontrar o armário correspondente, uma nova reviravolta no caso – Vanessa Camacho era o nome inscrito na porta, o que não fazia nenhum sentido já que procuravam um homem. Mas quando abriram, encontraram lá dentro os troféus do assassino – um pote cheio de unhas, indicando que a lista de crimes era maior do que se pensava.
Quando Vanessa viu a polícia, saiu correndo para não ser presa. Uma operação foi montada para capturá-la, ainda sem estar clara qual a sua ligação com o criminoso. Imaginava-se, a essa altura, que ela poderia estar se relacionando com o assassino. Porém, durante a perseguição, acabou sendo atropelada por um carro no anel viário, e veio a óbito no local.
Com a morte da moça, só quem poderia juntar as peças desse quebra-cabeças era a inspetora. Qual seria sua ligação com Cláudio? Por que ela guardava os seus troféus?
Uma semana depois, no gabinete do Prefeito, Claudete se apresentou com o relatório finalizado.
-Então senhor prefeito, o caso está encerrado. Vanessa Camacho era Cláudio de Deus Silva, um transsexual que após a transição de gênero, passou a usar esse nome. Sua história, como de muitos outros trans, foi de violência e abuso na infância, principalmente tendo nascido no interior da Paraíba. Aos 16 anos saiu de casa, prostituiu-se nas ruas de João Pessoa para sobreviver, e conseguir juntar dinheiro para fazer sua mudança de sexo. Ela havia ingressado na UFVG há apenas um ano, mas já havia morado em outros três estados, onde ocorreram crimes semelhantes, que nunca tinham sido solucionados. Dessa vez, por um acaso ou má sorte, as coisas não saíram como o planejado, e ela ainda deixou cair a chave do seu armário.
-Quanto ao seu perfil psicológico, sofria de uma psicopatia grave, certamente agravada pelo histórico de abusos sofridos. Seu comportamento pode ser classificado como o de uma serial killer missionária, aquela que acredita estar cumprindo uma missão, ao cometer seus crimes. O que faz todo sentido, porque após a conclusão das investigações, descobrimos que todas as vítimas eram homossexuais – um gatilho para a mente distorcida da assassina. O desejo de exterminá-las seria uma forma de eliminar o próprio sentimento de rejeição do corpo e da sua sexualidade, que nunca deu conta de resolver. Inclusive, por essa mesma razão, não havia sinais de abuso sexual.
-Em relação à escolha do biotipo das suas vítimas, Cláudio era moreno, e sofria de alopecia androgenética. Já Vanessa era bem mais clara, com cabelos lisos e castanhos. Durante o trabalho da perícia, o legista descobriu que ela estava fazendo uso de cosméticos para clareamento da pele, e seus cabelos, na verdade, eram uma peruca. Mais uma vez, a inconformidade – agora com a própria imagem, foi o elemento motivador dos crimes.
Surpreso com a riqueza de detalhes e minúcias da investigação, o prefeito boquiaberto levantou uma dúvida.
-Muito bem inspetora, estou impressionado com tudo que a senhora me disse, mas só tem uma coisa que ainda não faz sentido para mim até agora. Por que ela deixava a assinatura no espelho, sabendo que poderia ser identificada pelas digitais, como de fato a foi?
-Prefeito, a cabeça de um assassino em série não funciona como a nossa. Vanessa sempre foi rejeitada, uma excluída, por isso a doença intensificava nela o desejo de ser famosa, de ser lembrada. Esse é um traço comum entre eles – não desejam apenas matar. Também querem ser reconhecidos pelos seus crimes.
Espantado com tanta informação, o gestor municipal despediu-se da policial, não sem antes assinar um termo de reconhecimento público, enviado aos seus superiores, como forma de gratidão pelos serviços prestados.
Ainda no carro, Claudete recebeu um chamado – uma nova missão a aguardava, dessa vez no interior do Mato Grosso.