O chalé do lago

Era para ter sido a realização de um grande sonho. A promoção no escritório, com a prerrogativa de trabalhar em Home Office, e morar no interior, longe da agitação do grande centro. Logo que viu o anúncio na internet, fez contato e fechou a locação sem pensar duas vezes. Tinha tudo que buscava – muito verde, uma piscina com área gourmet, e o charme de poder trabalhar do sótão, tendo como vista um lago maravilhoso.

Na semana seguinte estava chegando de mala, cuia e Snoopy, seu salsicha inseparável. Assim que desceu do carro, ele começou a correr e pular de alegria. O lugar realmente era muito mais lindo do que na internet. Quando abriu a porta, ele começou a latir sem parar, parecia que não queria entrar no novo lar. Depois de muito insistir, conseguiu colocá-lo para dentro. Saiu fazendo xixi em cada canto:

– Coisa de menino, pensou.

Malas desfeitas, foi ajeitar seu novo ambiente de trabalho:

 – Nossa que vista! Realmente trabalhar com um visual daqueles, não tinha preço. Mas tinha consequência, e ela só iria entender isso dias depois.

Na primeira noite na casa nova, aproveitou para curtir um bom vinho, com a lareira acesa, saboreando um fondue de queijo. Tudo estava perfeito, até Snoopy começar a latir sem parar na janela.

– Que foi menino?

O doguinho estava transtornado, como nunca tinha visto antes. Pelo ouriçado, tremendo de nervoso, achou que fosse passar mal. Acendeu as luzes da varanda e do quintal, mas não viu nada. Teve que levá-lo para o quarto, e dormir para que se acalmasse.

Quando amanheceu o dia, assim que abriu a porta, ele saiu correndo para a varanda. E começou a latição novamente.

– Que foi garotão?

Perto da janela, uma galinha morta, sem cabeça.

– Cruzes, mas nem tenho galinheiro. Como isso pode ter aparecido aqui?

Prendeu o meninão, e foi limpar a sujeira. Depois pegou o carro, e foi ao vilarejo conhecer as pessoas e o comércio. Chegando lá, resolveu entrar em uma daquelas vendinhas de interior, um charme.

– Bom dia, o senhor que é o dono do estabelecimento?

Um senhor mulato, com um pano de prato nos ombros, e uma barba branca, respondeu cordialmente:

– Sou sim dona, Sebastião, ao seu dispor. A senhora deve ser a doutora que alugou o chalé.

– Sim, me chamo Renata, mas como o senhor sabe disso?

– Dona, aqui a gente sabe de tudo. A senhora pretende ficar lá por muito tempo?

– Se tudo correr bem, sim. Por quê?

– Nada não, dona. A senhora vai querer comprar alguma coisa?

– Não. Hoje estou vindo só para conhecer mesmo.

– Tá bom dona, mas toma cuidado. Aquele lugar costuma pregar peças à noite.

Sem entender o recado, se despediu, e voltou para casa. Chegando lá foi direto para a piscina aproveitar o dia de sol. À noite, estava no escritório trabalhando, quando seu fiel escudeiro começou a latir de novo. Dessa vez resolveu pegar uma lanterna, e investigar o que estava acontecendo. Acendeu as luzes, abriu a porta, e Snoopy saiu correndo. Olhou em volta da casa, e não viu nada de anormal. Quando chegou perto da piscina, tinha um coelho morto, sem cabeça, boiando dentro dela.

– Meu Deus, de novo?

Pegou uma peneira, tirou o bicho de dentro d’água, e ligou o filtro para limpar aquela sujeira. Entrou, e foi dormir. No meio da noite, acordou com alguém tocando seu corpo.

– Sai! gritou assustada. Acendeu a luz, e não tinha ninguém. Naquela noite não pregou mais o olho.

Quando o dia nasceu, se levantou e foi fazer um café para tentar recuperar o ânimo, por causa da noite mal dormida. Só que a sensação não saía da sua cabeça

– Como alguém poderia ter entrado dentro de casa e eu não ter percebido? E como desapareceu tão rápido?

Era domingo, então resolveu ir à missa na vila, o que não fazia há muito tempo, mas alguma coisa lhe dizia que devia fazer isso. Tomou um banho, se arrumou e saiu. Chegando na Igreja, foi recebida na porta pelo padre.

– Benção, padre.

– Deus te abençoe minha filha, você deve ser a advogada que se mudou para o chalé do Lago, não é isso?

-Não vou nem perguntar como o senhor já sabe, mas a resposta é sim. O senhor conhece a história daquele lugar?

– História? Minha filha no interior existe muita crendice, coisa de gente do interior. Aquela é apenas uma casa, como outra qualquer. Por que está me perguntando isso?

– Nada não padre, só curiosidade mesmo.

Entrou e foi se sentar no primeiro banco. De repente, ao seu lado sentou-se uma senhora com um xale escuro.

– Bom dia, você deve ser a moça da capital que mudou para o chalé.

– Sim, me chamo Renata, e a senhora? Qual seu nome?

– Conceição. Conheci os antigos donos de lá.

– É mesmo? Que bom, queria conhecer mais sobre a propriedade. Por que eles se mudaram? Algum problema de família?

– Problema? Não, minha filha, Dr. Alberto ficou viúvo, e foi morar fora do país.

– Ah, tá.

A conversa foi interrompida com o início da celebração. Ao final da missa, tentou saber mais sobre os antigos donos, mas a beata a dispensou, alegando pressa em cuidar do almoço do padre. Saindo da Igreja, seu Sebastião parou em frente ao seu carro.

– E então dona? Tudo bem no chalé?

Já curiosa e irritada com aquela situação, respondeu para o vendeiro.

–Não seu Sebastião, na verdade estão acontecendo coisas muito estranhas. Por duas noites seguidas apareceram bichos mortos, e ontem acordei assustada com alguém me tocando. Só que não tinha ninguém em casa.

–  Olha dona, eu avisei para a senhora tomar cuidado, que a noite lá podia pregar peças.

– Tá mas o senhor não falou nada sobre bichos sem cabeça, nem sobre assombração no meu quarto. Respondeu, já meio destemperada.

– Preocupa não dona, como eu falei são só coisas da noite. Tem que ter medo não. Inté mais ver dona.

Sem que pudesse retrucar, o homem deu de costas, e saiu andando. Irritada, entrou no carro e voltou para casa. Como o dia estava nublado, resolveu entrar e tentar dormir um pouco, já que durante a noite não tinha conseguido. Colocou Snoopy na cama, fechou a cortina e apagou. Acordou já eram quase quatro horas da tarde, com os lambeijos do seu meninão.

– Você deve estar com fome não é moleque? Eu também. Vamos arrumar nosso almoço.

Foi para a cozinha, abriu uma garrafa de vinho enquanto cozinhava, colocou uma música no Bluetooth e relaxou. Se esqueceu dos perrengues iniciais, e até pode curtir um final de tarde tranquilo com seu companheiro na varanda, enquanto o sol adormecia na cabeceira do lago. Depois daquele dia, as coisas acalmaram. Foram três semanas sem nada de ruim acontecer. Até que tudo mudou.

Já estava morando há um mês no chalé. A rotina da cidade grande tinha sumido de sua lembrança. Com o fim dos problemas à noite, estava totalmente relaxada. Trabalhava algumas horas à tarde, e depois era só curtição. A semana mal tinha começado, quando ela acordou com alguém batendo palmas no portão. Ainda sonada, colocou um roupão e gritou avisando:

– Um minuto que já vou atender.

Ao chegar na entrada da casa, não havia ninguém.

-Ué, será que a pessoa não quis esperar?

Intrigada, entrou e foi checar na câmera de segurança, poderia ser alguma coisa do serviço, e o entregador foi embora. Só que quando checou as imagens, não havia ninguém.

– Meu Deus, será que vai começar de novo?

E começou. Naquela mesma noite, enquanto trabalhava no computador, a luz piscou várias vezes, e depois simplesmente apagou. Snoopy começou a latir furioso, e enquanto ela descia para ver o que tinha acontecido, começou a ouvir gritos e gargalhadas vindos do lado de fora da casa.

– Meninão, vem cá. Disse chamando o cão já com o coração disparado.

Foi aí que tudo piorou. Começaram a socar portas e janelas, como se elas fossem arrebentar. Desesperada, começou a gritar por socorro, mas sem conseguir ajuda, e nem ter o que fazer, caiu em prantos no chão tampando os ouvidos.

Então, tudo ficou quieto. As vozes cessaram, os murros nas portas e janelas pararam, e a luz voltou. Quando abriu os olhos, respirou aliviada:

–Meu Deus, acabou!

Mas bastou olhar para cima, para encontrar seu amigo Snoopy, pendurado por uma corda no lustre da sala, já sem vida. Descontrolada, a moça pegou apenas a chave do carro, e fugiu daquele lugar amaldiçoado para nunca mais voltar.

Três meses haviam se passado, e Renata ainda estava sob o poder de remédios, para se recuperar dos traumas vividos no chalé. Era uma manhã de domingo, e o sol já havia nascido bem forte, invadindo o quarto pela varanda do apartamento.

Quando abriu os olhos, agradeceu por estar viva e por aquela manhã tão linda. Levantou-se da cama, colocou o roupão, calçou os chinelos e foi até a varanda para curtir ainda mais aquele visual. Mas assim que abriu a porta, um grito de desespero acordou todo o prédio:

– Não !!!!!!

O chão da varanda estava coberto de sangue, e de pombos mortos, todos sem a cabeça.

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