Camila e Ticiane caminhavam distraídas conversando, em direção ao ponto de ônibus, quando um andarilho as abordou respeitosamente:
-Com licença, jovens senhoritas. Será que posso tomar-lhes um minuto de atenção?
Ainda sob o impacto da presença de um homem mal vestido, fedendo a álcool e urina, mas com um linguajar tão respeitoso, elas interromperam o passo.
-Oi moço, o que tá precisando? Se for dinheiro, já vou logo avisando que não dou, porque sei que o senhor vai tomar tudo em cachaça.
-Ora, mocinha. Por quem me tomas? Será que minha aparência é o bastante para formar tal juízo?
-Claro, respondeu Camila.
-Então, se eu fosse um homem branco, loiro, trajando um costume escuro, de corte italiano, com a barba feita e cheirando a colônia, o juízo a meu respeito seria outro?
-Olha moço, não preciso nem responder, preciso? disse Camila.
-Óbvio que um homem com essa descrição seria uma pessoa de bem, que de forma alguma nos causaria mal, disse Ticiane.
-Entendo caríssimas. É sempre mais fácil julgar um livro pela capa, não obstante a história recente nos mostrar outra realidade. Mas não vou tomar-lhes mais o tempo. Agradecido pelos instantes de conversação, desejo-lhes paz e bem.
E do mesmo modo que apareceu, o andarilho sumiu.
-Que coisa hein menina, cara doido.
-Pois é Camila, cada um que aparece.
Chegando no ponto, encontraram a maior confusão – sirene de ambulância e o corpo de uma jovem caído no chão.
-Gente do céu, o que houve aqui? perguntou Camila.
-Ih moça, uma tragédia, respondeu a fofoqueira de plantão. A moça estava sozinha ali no ponto, quando apareceu um sujeito e passou a faca no pescoço dela.
-Cruzes, disse Ticiane, e o maluco? Foi pego?
-Sim, os taxistas viram tudo, foram em cima e quebraram o desgraçado no cacete. Já a moça, tadinha, não teve sorte.
– E onde tá esse doido?
-Ali, algemado perto do camburão.
Encostado na porta da viatura um homem branco, loiro, de boa aparência, trajando um costume escuro, de corte italiano, com a barba feita e cheirando a colônia.