Todos os dias, quando voltava para casa de carro, era o mesmo tormento – encarar a estrada da grota. Uma via alternativa – da época das roças de café – que só tinha ruínas de fazenda, cemitérios abandonados, assombração e assalto. Para esse último, a solução era andar armado no carro.
Mas tudo estava mais sombrio do que de costume – lua minguante, curiangos piando ouriçados, e os bugios avisando que a noite prometia.
Quando peguei o pior trecho, onde o celular ficava sem sinal, o carro apagou. Batia a chave, e nada. Tudo funcionava, menos o motor. Sem carro, sem celular e em um lugar deserto e sombrio, a única solução era esperar alguém passar, ou o dia nascer.
Só que do nada, uma névoa espessa e branca começou a envolver o veículo. Quando me dei conta, estava fechado dentro de um maciço branco.
-Que porra é essa! – pensei já com o coração disparado. Passei a mão na pistola, e coloquei entre as pernas – em caso de precisão.
De repente, uma batida forte no vidro, e duas mãos surgem marcando a janela. Se fosse cardíaco, tinha feito meu passamento naquele instante. Com o coração saindo pela boca, apontei a arma, e então, ouvi:
-Moço, socorro!
Era a voz de um garoto com certeza. Ainda com o dedo no gatilho abro o vidro, e o rosto de um menino dos seus 13 anos, surge de dentro da névoa.-
-Moço, me ajuda. Meu pai caiu do cavalo, e está desmaiado ali no chão.
Na hora não sabia o que fazer, mas resolvi abrir a porta, e ver o que estava acontecendo. Estranhamente, assim que desci do carro, a névoa desapareceu, tão rápido quanto ela surgiu:
-E então garoto, onde seu pai está?
-Vem moço que eu vou te levar lá.
O moleque começou a me puxar pasto a dentro.:
-Calma rapaz, senão quem vai cair sou eu.
Quando percebi, estava dentro das ruínas da Fazenda do Desterro, a mais antiga da região, cheia de histórias. Diziam os mais velhos que todos da família morreram de maneira trágica, um após o outro, até não sobrar nenhum. Foram enterrados no cemitério que ficava atrás da sede.
Então, o garoto parou e falou:
-É aqui moço!
-Mas aqui é o velho cemitério da fazenda, seu pai caiu nesse lugar? Onde ele está? – procuro tentando iluminar com a lanterna do celular, para ver se achava alguma coisa.
-Bem aí na sua frente!
Quando clareio, vejo uma cova aberta.
-Mas aqui só tem um buraco?
-Sim, e é nele que você vai repousar – para sempre!
Com uma força descomunal para um garoto, ele me empurrou dentro da cova, e antes que eu pudesse reagir, um mundo de terra caiu sobre mim.