Na entrada da comunidade, a estrutura do palco montada, e o grande número de viaturas, já anunciava que era dia de inauguração no morro. Logo chegaram os carros oficiais, e a imprensa acompanhando o comboio.
Já no palanque, o Governador discursava para uma plateia pouco empolgada, ao lado da esposa e da filha de cinco anos. De repente, tiros e corre-corre, e só então o político se deu conta de que uma bala perdida, havia ferido mortalmente sua pequena.Com sangue nos olhos, ele ordenou que todo o efetivo subisse o morro, e só retornasse quando não tivesse sobrado nenhum faccionado.
Naquela manhã, das Dores arrumou os gêmeos, Kleiton e Keirrisson, para deixá-los na creche comunitária, antes de ir para o serviço. Trabalhava há quatro anos como doméstica para uma família de médicos, desde que seu marido morreu durante um assalto, quando voltava do serviço. Na época, os gêmeos tinham apenas hum ano.
-É meu pai, tá tudo na benção. Aqui tem tiro, mas sei que posso trabalha tranquila, porque os menino tão seguro na creche. – pensava enquanto descia o escadão. Ela se referia a um episódio recente, quando um abusador tentou invadir o lugar. O dono do morro mandou achar e prender o safado, e colocar para fritar no Cruzeiro, lá no alto do morro.
Assim que das Dores pegou o ônibus, a polícia invadiu. Foi uma verdadeira chacina. Os homens da tropa de elite da PM encurralaram os traficantes na matinha, que ficava atrás da creche. No meio do fogo cruzado, as crianças. Ao final da tarde, o resultado da operação: 100 mortes. 15 somente na creche – três professoras, uma servente, a diretora e 10 crianças, dentre elas Kleiton e Keirrisson.
Quando ouviu na TV a notícia da operação no morro, das Dores deu um grito de desespero, e saiu correndo do serviço.
-Meu Deus! Meus menino!
No dia seguinte, enquanto uma mãe destruída velava seus filhos na comunidade, a cidade chorava indignada a tragédia, estampada nas manchetes dos jornais:
“BALA PERDIDA DO TRÁFICO
ATINGE FILHA DO GOVERNADOR”
A menina tinha apenas cinco anos