A história do Feijão

Nasceu negro, pobre e filho de soldados do tráfico, no Morro da Babilônia. Ainda bebê, seus pais tombaram em combate com a polícia. Sem parentes próximos, foi mandado para adoção em um orfanato. Apesar de ter sido o mais esperto dos garotos, falante e simpático, somente aos sete anos sua vida iria mudar.

Elza e Erik chegaram ao Rio de Janeiro com a intenção de adotar uma criança – sem restrições de idade ou cor. Ela, uma brasileira que fez sua vida fora do país, como comissária de bordo, em uma das maiores companhias aéreas da Europa. Ele, um advogado sueco, dono de uma rede de escritórios na Europa e Oriente Médio.

Assim que chegaram ao orfanato, o molequinho foi recebê-los na porta, como fazia com cada visitante que lá chegava:

-Oi tios, eu sou o Feijão! Querem conhecer minha casa?

E antes que o casal tivesse tempo de responder, pegou-lhes pelas mãos e saiu puxando pelo orfanato adentro, mostrando cada detalhe, apresentando cada criança e colaborador.

Alguns meses depois, Feijão estava embarcando com Elza e Erick para a Suécia, onde passaria a se chamar Sven. Lá sua vida se transformaria, como em um conto de fadas moderno.

20 anos se passaram. Sven agora era um rico e jovem advogado, que com a morte do pai assumira os negócios da família. Realizando um desejo que guardava, desde que deixou o orfanato, estava de volta ao Rio de Janeiro – queria conhecer a comunidade onde havia nascido e, quem sabe, reconectar-se com o seu passado.

Na entrada do morro, uma operação policial procurava por membros da facção que controlava o tráfico. Quando se aproximou da barreira, Sven atendeu à ordem de parada do policial, e se abaixou para pegar seus documentos no console. Achando que o rapaz ia sacar uma arma, um dos policiais abriu fogo contra o carro – e ainda debochou:

-Preto andando de Mercedes zero km é traficante, ou roubou o carro na Barra. CPF cancelado!

Sven morreu com o passaporte na mão. Sobre o banco sujo de sangue, a única foto que tinha dos pais junto com ele, quando ainda era um bebê, em frente à casa onde moravam na comunidade.

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