À margem

Alfredo era um ícone entre os seus. Enaltecido, desejado e até copiado, estava sempre rodeado por uma multidão. O que ninguém sabia (ou fingia não saber) era da solidão que preenchia seu peito – tão cheio e tão vazio ao mesmo tempo. Tinha todos, mas não lhe sobrava ninguém para dividir, conversar e até chorar. 

Um dia, decidiu abandonar a beira, e pular no rio de águas revoltas. Enquanto seus pulmões eram preenchidos pelo líquido escuro e lamacento, não se sentia mais sozinho pela primeira vez. As criaturas das profundezas, que pouco depois iriam devorar suas carnes, eram naquele instante a melhor companhia que nunca havia conhecido.

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