Rasgados

Na alameda do cemitério, uma urna solitária é empurrada pelos coveiros. Desse passamento, nem mesmo os corvos quiseram participar. Em frente à cova, um padre impaciente aguardava para se desincumbir da missão sacerdotal. Com a chegada do féretro, o Cura rezou uma Ave Maria e deu por encerrado o caso, enquanto os coveiros desciam para as profundas, o corpo do maldito. No final, a mesma terra pela qual roubou e matou, seria sua última e derradeira companhia.

Antônio Cipriano era seu nome, mas gostava mesmo era de ser chamado de Delegado. O maior grileiro da região Norte, que carregava em seus ombros muita terra e cadáveres. Diziam por lá que rasgava na lâmina do facão, quem o desafiava. E assim, fez fortuna – tornando-se o homem mais rico de Santa Cruz do Norte. Sem família, nem filhos, sua única companhia eram as meninas de Dona Tereza, uma puta velha que comandava o maior rende vou da região, onde batia ponto toda noite. Diziam as moças que o encardido fazia questão de bater lá no fundo até doer, com um falo desproporcional, e que era seu motivo de maior orgulho. Até que um dia, tudo mudou.

Acabara de chegar ao bordel Leontina, uma moça jovem, faceira, mas cheia de ideias na cabeça sobre justiça e essas coisas. Não demorou nem uma Ave Maria para que Delegado fosse se deliciar do novo prato. Terminado o repasto, o homem ainda virou para a jovem em tom de mando:

– A partir de hoje você é só minha, não se deita com mais ninguém.

Como Leontina não se permitia colocar cabestro, tramou logo um plano de vingança;

Na noite seguinte, foi recebido por uma cabocla cheia de fogo. No meio do furdunço, ela ofereceu uma cachaça ao desinfeliz, que foi ficando bobo, bobo até virar um boneco sem reação. Somente os olhos mexiam.

Ainda vivo, mas sem poder reagir, foi levado para o meio da rua, onde começou a ser rasgado pelo povo que se juntou em volta, com a fúria de um chacal na carniça. A melhor parte ficou para Leontina – com uma peixeira na mão, cortou lentamente cada vaso e veia do falo do peste, que esguichava sangue em sua cara, cheia de prazer e contentamento. Já sem vida, o corpo foi deixado para os urubus, mas o grande troféu foi guardado, para ficar exposto no balcão do bar do puteiro de Dona Tereza.

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