O porão

Peguei a estrada, e fui para a fazenda de minha família resolver os últimos detalhes para sua venda, e encerramento do espólio. No caminho, a paisagem centenária do Vale do Café, me fez voltar no tempo, e recordar a cruel história de meus antepassados.

Meu bisavô, o Barão Antônio de Nogueira Sales e Sobreira, foi um dos portugueses mais ricos daquela região. Filho de nobres da Corte de D. João VI, veio ao Brasil em busca de aventuras, e se encantou por Dona Carolina Mendes e Sá, minha bisavó, filha da melhor burguesia brasileira. Casados, comprou a Fazenda da Boa Morte, a maior propriedade cafeeira da região, o que lhe rendeu a alcunha de Barão da Boa Morte.

Essa fazenda era famosa não só pela produção do melhor café, mas também por possuir a maior quantidade de mão-de-obra escrava do Vale. Nos seus tempos áureos, chegou a contar com mais de 500 cabeças de negros e negras de boa corpulência. Aliás, as negras sempre foram sua perdição, e motivo da maior lenda (ou maldição) que recaiu sobre minha família.

Segundo ouvia meu pai contar que seu avô, o Barão, tinha tamanho fascínio pelas escravas de seios fartos, que havia prenhado mais de 100. Mal saídas do ventre, as crianças eram levadas pelo capataz, e lançadas no Rio da Boa Morte. Todas, menos uma, a filha de Teresa, a preferida do malvado, que nascera de olhos azuis como a cor do céu, traço distintivo de minha família. Fato é que, ninguém mais soube da bebê depois de parida, se viva ou se morta. De tão revoltada, a negra morreu no açoite, praguejando e amaldiçoando o Barão, e todos que do seu sangue viessem.

Meu falecido pai, que sempre fora um ativista pela liberdade, nunca aprovou o modo de vida da família, tanto que fez fortuna por conta própria, sem se deixar envaidecer pelo sangue azul dos Sales e Sobreira, ao contrário de meus tios e primos que, coincidentemente ou não, morreram todos de maneira trágica. Então, eu era o último herdeiro vivo da linhagem do Barão da Boa Morte.

Chegando à sede, fui recebido por Justino – um velho negro que ainda cuidava do que sobrou da história daquele lugar.

– Boa tarde Justino. Como estão as coisas por aqui?

– Boa tarde, Dotô Gustavo. Vão indo como Deus qué, por que bem aqui nunca teve mermo.

As palavras do homem me fizeram perceber o quanto de ranço, e rancor, ainda existiam ali.

– Dotô, o senhor vai pernoitá por aqui? Perguntou com um ar de incômodo o empregado, enquanto abria a porta da sede.

-Pretendo não Justino, por quê?

-Nada não Dotô, só cisma de um nego véio mermo.

Ao entrar no casarão, a luz do sol que já ia caindo, coloria de laranja a sala decorada com vitrais portugueses. Estava tudo como me lembrava de criança, nas raras visitas que fazia aos meus avós. A cor escura da madeira dos móveis, dava ao lugar um tom mais sombrio ainda. Os sofás de veludo vermelho, a enorme mesa de jantar, com suas cadeiras de espaldar alto.  Os lustres gigantescos. As porcelanas da família guardadas na cristaleira. O relógio de pêndulo inglês estacionado nas nove horas. Tudo parecia congelado no tempo. Não fosse a poeira, diria que alguém ainda morava na casa.

Realmente, não pretendia ficar muito tempo naquele lugar, pois ele me dava arrepios, porém alguma coisa me puxava para dentro das histórias ali guardadas.

De repente, me recordei das brincadeiras de moleque, quando eu e meus primos corríamos de um lado para o outro, explorando cada cômodo. Então, me lembrei do porão, que ficava nos fundos da cozinha. Meus avós não gostavam de tocar nesse assunto, nem tampouco as empregadas, mas os filhos dos colonos sempre disseram que lá dentro vivia um monstro. Coisa de criança. Será? Mas era como se estivesse sendo chamado, para descobrir a verdade por trás daquela história.

Já estava escurecendo, então acendi uma lanterna, arrastei um móvel e achei o tal covil do monstro. Forcei um cadeado velho que se partiu, e abri a portinhola. Um cheiro desagradável de morte e dor queimou minhas narinas, quase me fazendo sufocar, contudo não conseguia mais voltar atrás, tinha que ir até lá embaixo.

Então, desci as escadas, e a luz branca começou a revelar o passado escuro de minha família. Em uma das paredes vejo pendurados algemas, anjinhos, gargalheiras e ferretes, certamente herança dos tempos de tortura e escravidão da Boa Morte.

Em outro canto muitos baús. Me aproximei, e abri um deles. Dentro encontrei pedaços de pano sujos.  N’um deles reconheci estampado, com algo que parecia ter sido sangue, o corpo de um bebê – um sentimento de revolta e nojo invadiu meu corpo.

-Meu Pai do Céu, será então que as histórias do Barão eram reais?

Descontrolado me virei, e o foco de luz encontrou uma cama. Cheguei perto, e sobre ela vi o que sobrou de um corpo.

Confuso, e sem conseguir raciocinar direito, senti alguém tocando meu ombro. Com o corpo gelado de medo me virei, e quando a lanterna iluminou o cômodo, gritei de pavor…

Então, tudo ficou escuro e quieto, para sempre.

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