Todas as noites quando voltava da escola, o ônibus deixava Juliana na porteira da fazenda, e até chegar à sede era um bom chão, de escuro e medo. Nascida e criada no lugar, a menina já conhecia todas as lendas e histórias da região.
A fazenda do Mato Adentro havia sido uma grande propriedade cafeeira, mas desses tempos só restaram as ruínas da senzala, e a sede centenária.
E era justamente da senzala que vinham as histórias de assombração. Os mais velhos contavam que a alma do Capitão do Mato, havia ficado presa ali, por conta das suas maldades cometidas.
Naquela noite, a lua estava minguante, o que tornava o lugar ainda mais sombrio e assustador. A garota sempre passava ali no galope, mas nesse dia tropeçou num buraco e acabou caindo no chão. Com a força do tombo, perdeu os sentidos, e quando abriu os olhos, viu um homem de chapéu branco, olhos vermelhos como fogo, com um chicote na mão. Da sua boca saía uma risada diabólica.
Quando o Capitão levantou o chicote para bater, ela começou a ouvir uma cantoria, vindo de dentro da senzala. Então, um capoeira veio rodopiando, e deu um rabo de arraia no malvado, que caiu no chão.
Foi o tempo necessário para ela se levantar, e sair correndo. Quando já estava distante, parou, olhou para trás e não viu mais ninguém, nem o capoeira, nem o Capitão do Mato. De longe, ouvia apenas a cantoria dos escravos, comemorando a vitória sobre o malfeitor.