Júlia estava lindamente radiante ao pisar no tapete vermelho, acompanhada de um pai que não cabia em si, de tanta felicidade. A nave central da igreja estava decorada com gérberas da cor lilás, que realçavam ainda mais os detalhes em dourado, bordados na enorme cauda do vestido.
Ao som de “All you need is love”, interpretada por um coro infantil, acompanhado pelo delicado som de um quarteto de sopro, a nubente alcançou o altar, onde Eduardo – seu noivo – a aguardava trêmulo de emoção, vestindo um meio fraque bege.
“Assim, eles já não são dois, mas sim uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, ninguém separe.”, com essas palavras do evangelista Mateus, o pároco destacou em sua homilia que o casamento é um sacramento, um sinal visível da graça de Deus, que fortalece a união e a promessa de amor que perante a Igreja, só pode ser desfeito pela morte.
Na hora do tão esperado beijo, a noiva subitamente empalideceu, e caiu já sem vida, nos braços de um esposo assustado, que parecia não acreditar que o sonho de uma vida, pudesse acabar em um breve instante.
O acontecido virou manchete nos jornais, e até na televisão. Durante as exéquias, o viúvo estava transtornado – um morto-vivo, sem alma, esperança e desejo de continuar vivendo. Ao seu lado todo o tempo, estava Rafaella, gêmea de Júlia, que vencendo a dor da perda de sua única irmã, ainda encontrava forças para amparar o ex-cunhado.
Na hora do sepultamento, a comoção dos presentes foi geral, ao presenciarem o desespero de um jovem rapaz, que não resistindo à dor da perda de sua esposa, desfaleceu e teve que ser amparado por familiares, que o retiraram antes dos ritos finais. Terminada a cerimônia, todos haviam deixado o local, menos Rafaella que se aproximando do túmulo, tocou a foto da irmã, e foi embora.
As gêmeas nasceram em uma família de classe média alta – pai advogado, mãe dentista – por isso mesmo sempre tiveram todo o conforto e cuidado, que o dinheiro poderia lhes proporcionar. Apesar de idênticas na aparência, Júlia sempre foi mais doce do que a irmã que, ao contrário, parecia eternamente ressentida.
Ainda na fase escolar, enquanto uma era a queridinha dos colegas e professores, a personalidade forte da outra a tornava a antipática da turma. Já adolescentes, Rafaella se divertia trocando de lugar com a irmã, principalmente quando começaram a surgir os primeiros namoricos. Gentil e amorosa, Julia sempre cedia aos seus caprichos.
Com a chegada dos estudos universitários, a moça conheceu Eduardo no primeiro ano de faculdade, quando cursava Direito, e ele Administração. Foi um amor incondicional, os dois pareciam feitos um para o outro. A meiguice da jovem completava a simpatia do rapaz, que conquistou a família desde o primeiro dia, quando pediu ao Doutor Fonseca permissão para namorar em casa.
Ao contrário da outra gêmea, Rafaella nunca teve um relacionamento duradouro. Na faculdade de medicina ganhou a alcunha de “destruidora de lares”, pois colecionava entre seus casos e rolos, vários professores.
Durante o baile de formatura da irmã, no meio da festa, e depois de muitas doses de whisky, ela roubou um beijo do cunhado, e disse em seu ouvido:
– Você ainda vai ser meu um dia!
Embalados pela alegria e pelo álcool, ninguém deu importância ao acontecido, e a vida das duas seguiu rumos bem diferentes.
Júlia decidiu especializar-se em Direito da Família, passando a atuar voluntariamente em projetos sociais, enquanto se preparava para a magistratura – seu grande sonho.
Já Rafaella, terminou o curso de Medicina, e especializou-se em Psiquiatria. Segundo suas próprias palavras, “queria tratar de loucos, assim como ela”. Montou uma clínica, e passou a atender apenas endinheirados e famosos.
Um dia, a irmã virou sua paciente. Sofrendo com crises de ansiedade, por conta da proximidade do casamento, e do concurso que faria logo em seguida, pediu à doutora que lhe receitasse algo, para aliviar aquela tensão. Então, ela prescreveu um tarja preta tão forte, que não era vendido em farmácias, deveria ser encomendado diretamente do laboratório, a Venlafaxina.
Estranhando a prescrição, Júlia perguntou:
– Rafa, você tem certeza de que esse remédio não é muito forte?
– Claro que não é sua boba, você acha mesmo que eu ia receitar algo que pudesse lhe fazer mal? Esse é um medicamento novo, que estou usando com meus pacientes, e tem apresentado ótimos resultados.
Confiando no carinho da irmã, e na competência da médica, a jovem tomou a medicação conforme indicado. Pouco depois, começou a ter fortes palpitações, dores no peito e sensação de desmaio. Questionada, a doutora disse que esses efeitos passariam em poucos dias, e que eram reações normais do organismo afetado pela ansiedade, ao medicamento.
E o dia tão esperado pelos noivos chegou. Rafaella não só acompanhou a irmã na escolha do vestido e na preparação da cerimônia, como deu de presente para o casal uma enorme tela, que tinha estampada a imagem de “La Catrina”, figura icônica da cultura mexicana, que desafia a ideia da morte como um fim, celebrando a vida e a memória dos mortos. Um símbolo de boa sorte e proteção segundo os mexicanos, disse ela aos nubentes.
No dia da cerimônia, ainda em casa e enquanto se arrumava, a moça começou a passar mal. Pensando tratar-se de outra crise de ansiedade, chamaram Rafaella para atender a irmã, que lhe deu dois comprimidos da droga de uma só vez. Sem consciência do que estava acontecendo, restou a inocente noiva apenas tomar a medicação…
Eduardo e Rafaella agora vivem no México, para onde se mudaram logo depois do casamento. Ele trabalha com comércio internacional, e ela montou uma clínica psquiátrica na capital do país, que atende políticos e personalidades famosas da região. No hall de entrada, um grande mural ostenta a imagem de “La Catrina”.