Vazante era uma pequena cidade do interior de Goiás, reconhecida nacionalmente pela sua criação de aves, em especial os perus, que abasteciam as geladeiras e freezeres Brasil afora. A grande vedete do lugar era o peru Baltazar, uma espécie rara de peru branco real, que servia de matriz para todos os criadores e que, de tão importante, abria as comemorações do Natal em carro aberto todo ano, junto do Papai Noel.
O galináceo era a cara e o espírito natalinos. Ao lado da “Casinha do Bom Velhinho” na praça central, havia também a “Casinha do Baltazar”, onde as crianças faziam fila para registrar uma foto com a maior celebridade municipal. Até que um dia algo terrível aconteceu, justo na semana que antecedia o desfile de Natal.
Ao chegar de manhã no viveiro para tratar de Baltazar, Antônio – seu cuidador – levou um susto. O peru havia sumido. Dentro do viveiro somente penas brancas, e pedaços cortados de barbela vermelha.
– Jesus Amado! gritou o assustado tratador, enquanto se aviava para pedir ajuda.
– Seu Luíz, seu Luiz, uma tragédia. Falou com o dono do aviário.
– O que foi Antônio? Perguntou preocupado o criador.
– Baltazar, seu Luiz. Baltazar morreu!
O homem quase caiu no chão de susto. Como assim? A ave mais cara, matriz da região, como pode ter morrido, se nem doente estava?
– Que história é essa Antônio? Você tá doido? Me mostra o que aconteceu. E saíram os dois apressados para checar o ocorrido.
Chegando no viveiro, Luiz encontrou exatamente o que Antônio havia visto – muitas penas, barbelas cortadas, e nenhum sangue. Só podia ser obra de onça, pegou o coitado pelo pescoço e arrastou para longe, sem dar nem tempo de sangrar, pensou o dono das aves.
– Você já achou o buraco por onde a danada passou, Antônio?
– Tô procurano seu Luiz, mas não tô vendo buraco arrombado não.
– Então Antônio é melhor chamar a Polícia Ambiental, se foi onça ou se foi gente, só eles vão poder dizer.
Na manhã seguinte, a cidade estava em polvorosa. Enquanto todos comentavam o trágico desaparecimento da ave, o tabloide local estampava em sua manchete:
ASSASSINARAM O PERU!
Baltazar foi morto com requintes de crueldade,
em circunstâncias ainda não esclarecidas
Ainda naquele dia, um grupamento da Polícia Ambiental se dirigiu à Vazante, para investigar o desaparecimento da ave, e apurar as circunstâncias e motivação do crime. Sob o comando do Sub-Tenente Cesário, os soldados chegaram à propriedade do Luiz.
– Bom dia, gostaria que me mostrasse o local onde estava a ave, e também quero ouvir o tratador que deu falta do animal.
– Antônio, leva o Sub-oficial até o viveiro do Baltazar, e conta pra ele tudo que você me disse.
– Tá bom, seu Luiz.
Chegando ao local, o tratador se apressou em explicar o ocorrido.
,- Olha seu guarda, foi assim. Todo dia de manhã sou eu que venho trata do Baltazar, ele já me conhece de longe, e começa a grita quando sabe que tô chegando.
– Ontem, quando vinha vindo, achei estranho que ele não chamô. Quando cheguei aqui, encontrei isso que o senhor tá vendo – pena branca, e barbela de peru cortada.
– Ok, e o senhor encontrou algum sinal, ou rastro de bicho?
– Oh seu guarda, o Baltazar pesava mais de vinte quilos, pra fazer isso tinha que sê uma onça. Mas não achei rastro, ou sinal da danada.
– E sangue? Tinha sangue no viveiro, ou próximo daqui? Perguntou o militar.
– Não seu guarda, nem uma gota, isso é coisa de onça, com certeza. Ela que trava o dente na jugular, e não deixa o sangue pinga, pra esconde o rastro da presa.
– Está certo seu Antônio, nós vamos fazer uma busca pela região, e se precisar, falo com o Senhor novamente.
O grupamento saiu da propriedade em busca de pistas que pudessem indicar o paradeiro da ave, percorrendo morros, brejos e ravinas, mas não encontraram nem sinal do peru.
Enquanto isso na cidade, uma figura muito suspeita acompanhava em silêncio o furdunço do sumiço de Baltazar. Era Melquíades, um velho que morava só, lá na tapera, e tinha fama de maluco e poucos amigos. Segundo diziam, ele tinha ficado ruim das ideias, depois que perdeu a mulher e o filho, vítimas de febre maculosa. Então se tornou recluso, morando sozinho em uma casa de pau-a-pique, sem vizinhos, ou parentes.
Melquíades entrou na venda do Joaquim português, e fez um pedido inusitado:
– Dia Joaquim, separa pra mim umas incomenda. Tá tudo nessa lista aí, que mais tarde passo aqui e pego.
O português pegou o pedido, não sem antes se surpreender com as encomendas: um pão para rabanada, um pacote de farofa, ameixa, uva passa, fios de ovos e uma garrafa de vinho Sangue de Boi. O dono da venda achou estranho, mas sem dar maior interesse, separou as encomendas, e deixou em cima do balcão para o velho buscar.
De volta ao aviário, Tenente Cesário e seus homens foram ao encontro do Luiz, para repassar o resultado da missão – afinal, será que encontraram o Baltazar?
– E então Tenente, perguntou o aflito avicultor. Acharam algum sinal da minha ave?
– Infelizmente não, meu senhor. Isso realmente deve ter sido obra de onça, por que achamos muito rastro, e fezes do felino na região. Nossa sugestão é que melhore a segurança da propriedade, porque certamente ela vai retornar para pegar outros perus.
Desconsolado, o pobre homem agradeceu o empenho da tropa, e despediu-se da patrulha, que retornou para o quartel deixando Luiz em profunda tristeza, e prejuízo.
Ao saber do veredito, o prefeito de Vazante decretou Luto oficial de três dias no município, e suspendeu todos os festejos. Nem mesmo o desfile do Noel aconteceria, em respeito à memória da figura mais ilustre do lugarejo, que havia partido de maneira tão brutal. Afinal, Baltazar era o próprio espírito do Natal na cidade.
Na cidade chorosa, não houve casa que comemorasse a data. No dia 24 de dezembro o lugar ficou deserto, não se via viva alma pelas ruas, nem a Missa do Galo teve na Igreja. As casas estavam todas apagadas, e em silêncio, menos uma.
Na tapera, um casebre simples estava todo iluminado com lamparinas coloridas, e do interior se ouvia a música de uma radiola entre risos alegres – o lugar emanava o verdadeiro espírito natalino. Lá dentro havia uma mesa com quatro cadeiras, recheada com quitutes, rabanada, farofa, arroz de festa e uma garrafa de vinho. Em uma delas a foto de uma mulher, na outra a de uma criança, na terceira Melquíades – alegre como nunca se viu, que conversava divertidamente com Baltazar, que tinha o rabo depenado e as barbelas aparadas, mas ainda assim respondia ruidosamente às gargalhadas do novo amigo.