Agosto

Bastava chegar agosto, para que os moradores da pequena Santo Antônio da Bocaina ficassem em polvorosa, temendo a passagem da Maria Preta – será que ela voltaria novamente? E isso se repetia há mais de 10 anos. Não existia uma mãe ou pai que ficasse sossegado durante esse mês, temendo pela segurança de seus bebês, afinal 12 já haviam sumido misteriosamente, sempre no dia 13, e nunca foram encontrados. Até a polícia da capital havia sido chamada para investigar os desaparecimentos, mas, sem sucesso, não encontraram pista sequer que levasse ao paradeiro dos rebentos.

Por conta disso, a Igreja resolveu enviar um padre exorcista, especialista em assuntos desse tipo, para investigar o mistério que envolvia aquela cidade, já que para a população local a culpa era uma maldição que se abatera sobre o povoado.

Segundo contavam os mais antigos, quando Bocaina ainda era a terra dos Barões do café, existia na região uma famosa parteira – a Maria Preta – uma escrava alforriada que trazia ao mundo os filhos da região – dos nobres aos mais humildes, era sempre ela quem chamavam para cuidar.

Até que um dia, algo deu errado. Durante o nascimento do primeiro filho do Barão de Bocaina, a mãe e a criança perderam a vida, em razão de complicações na hora do parto. Transtornado e cheio de ódio, o homem mandou açoitar a pobre mulher, que implorando misericórdia, morreu no tronco, jurando se vingar daquele povo malvado.

Passados mais de 100 anos do ocorrido, a primeira criança sumiu de seu berço, em uma noite de agosto, 13. Para desespero dos pais, ela nunca foi encontrada, e mais 11 haviam desaparecido, desde então – uma a cada ano. Muito supersticiosa, a população atribuía a culpa dos sumiços à maldição da “Maria Preta parteira”, que havia jurado vingança.

Para acabar com qualquer chance de aquele ser um fenômeno sobrenatural, padre Antônio Pio acabara de chegar à cidade, com a missão de investigar a fundo aqueles desaparecimentos. O religioso era um especialista em questões desse tipo, já tendo desvendado várias fraudes, mas também comandado inúmeras sessões de exorcismo, sempre servindo-se das orações, e da cruz de São Bento para curar as almas atormentadas por criaturas malignas.

Na noite malfadada, a cidade transpirava tensão, bastou escurecer para as ruas ficarem desertas, e as casas todas acesas – era uma sexta-feira 13 de agosto – não poderia existir pior presságio. Nas famílias onde haviam bebês, mães desesperadas agarravam-se a seus rebentos, temendo o pior.

Enquanto isso, padre Pio mantinha-se em oração na Igreja Matriz de Nossa Senhora Desatadora dos Nós, rogando por iluminação no esclarecimento daquele mal, que afligia os pais e mães da pequena cidade.

De repente, alguém entra gritando dentro da Matriz:

– Padre, padre acode. A Maria Preta passou de novo!

De imediato, o religioso pegou seu terço de São Miguel Arcanjo, sua Bíblia e a insígnia de São Bento, e saiu em disparada para tentar não perder nenhuma pista, e ainda encontrar a criança em segurança.

Chegando na casa da vítima, o religioso encontra uma família em desespero. A mãe inconsolável se joga aos seus pés:

– Por misericórdia padre, me ajuda, levaram minha bebê!

Tentando entender o ocorrido, o padre busca acalmar a mãe e lhe pergunta:

– Calma minha filha, nós vamos encontrar sua filha, mas antes preciso que você me explique como tudo aconteceu.

Ainda em soluços, a pobre mulher lhe diz:

– Olha padre, nós tomamos todos os cuidados. Meu marido estava na sala com nossos dois filhos maiores, e eu fiquei no quarto com minha bebê, ao colo. Como ela havia dormido, eu a coloquei no berço, e saí apenas por um instante para ir ao banheiro, quando voltei ela já não estava mais lá. Pelo amor de Deus padre – em prantos – acha minha filha!

– Tenha fé, nós vamos encontrá-la. Me leve ao quarto onde a bebê estava!

Chegando ao local, o religioso pede para entrar sozinho. Faz uma oração rogando a São Bento iluminação, e começa a procurar pistas. Antes de ser apenas um religioso, padre Pio era um especialista forense, por isso investigava em detalhes todos os fatos, para somente depois tratar do sobrenatural. Vasculhando o local, encontra no chão, ao lado do berço, algo que chama sua atenção – um terço. Retorna à sala, e pergunta à família:

– Por acaso vocês reconhecem isso aqui?

A mãe e o esposo olham para o objeto sem entender a pergunta, mas não sabem explicar de onde teria surgido. Então, apressado, o religioso se despede e retorna à Matriz, prometendo descobrir a verdade, e o paradeiro da criança.

Chegando à Igreja, chama o vigário local e lhe faz a mesma pergunta:

– Padre João, o senhor reconhece esse terço aqui?

O homem então o pega nas mãos, e prontamente responde:

– Com certeza que sim, é da dona Virgínia, a catequista da nossa paróquia. Por que a pergunta? Onde o senhor o encontrou?

Sem tempo para dar explicações, pede ao vigário que lhe indique onde mora a tal senhora. Padre João, então, chama o diácono, e pede que leve padre Pio até a casa da catequista.

Intrigado, o homem chega no endereço da religiosa. Era um sobrado antigo, que ficava numa rua quase deserta. No local, a casa estava toda apagada, mas vindo do porão via-se uma luz mortiça, de onde era possível escutar um choro abafado de criança. Ele então orienta ao diácono que retorne imediatamente à Igreja, e peça ao padre João que acione a polícia, para que venham imediatamente ao seu encontro.

Enquanto aguarda a chegada do reforço policial, o investigador se aproxima do porão e vê, por entre a fresta de uma janela, algo terrível – 13 berços, um ao lado do outro.

Com a chegada do destacamento policial, o religioso toma a frente e consegue acessar uma porta que levava ao interior da casa. Chegando lá, encontra uma portinhola entreaberta, iluminada por uma luz de lamparina. Quando os homens se aproximam sentem um cheiro forte e desagradável, e ouvem o choro de um bebê. Então, se apressam para descer ao porão, onde encontram dona Virgínia que embalava carinhosamente a pequena em seu colo.

Surpreendida, ela a joga dentro de um berço vazio, e foge por uma porta lateral. O que eles encontraram ali era assustador. Nos outros 12 berços, 12 bebês enrolados em mantas, já em avançado estado de putrefação, com um detalhe sombrio – todos tinham as bocas cobertas por fitas adesivas, postas em formato de cruz.

Preocupado com a sobrevivente, padre Antônio a pega no colo, garantindo que ainda esteja bem, e com vida. Muito assustada e chorando, ela é entregue a um dos policiais, para que seja levada de volta à família. Então começa a perseguição pela criminosa, que cometera crimes tão bárbaros.

O efetivo policial empreende uma busca pela região, mas são avisados de que a fugitiva estava na torre da Igreja Matriz.

Chegando lá, padre Antônio vê uma mulher transtornada, e gritando:

– Ninguém vai tomar meus bebês, eles são meus, não vou perdê-los de novo!

A cidade toda corre para o largo da Matriz, para acompanhar o desfecho daquela trágica história. Sentindo-se acoada pelos policiais, que chegavam à torre para capturá-la, a enlouquecida assassina se atira do alto da Igreja, em um salto para a morte.

O que todos queriam entender era como o investigador tinha descoberto a sórdida trama, e o porquê daquela bondosa senhora, sempre tão zelosa com as crianças da paróquia, ter se tornado um ser tão abjeto e vil.

Para a primeira pergunta, Pio explica à comunidade:

– Bem, quando entrei no quarto encontrei um terço, caído no chão ao lado do berço. Mas não era um terço qualquer, e foi esse detalhe que me levou à assassina de crianças. Era uma relíquia de Santa Gianna Beretta Molla, uma santa italiana certamente pouco conhecida por aqui, e que por isso mesmo me ajudou a chegar até Virgínia.

E continua o padre:

– Tão incomum quanto à devoção a essa santa, é a sua história de vida – “Santa italiana, adoeceu de câncer e decidiu continuar com a gravidez de seu quarto filho, em vez de submeter-se a um aborto, como lhe sugeriam os médicos para salvar sua vida. Gianna estudou medicina e se especializou em pediatria. Casou-se e teve quatro filhos. Durante toda sua vida, conseguiu equilibrar o trabalho com sua missão de mãe. Morreu aos 39 anos, uma semana depois de ter dado à luz. Foi canonizada em 16 de maio de 2004 pelo Papa João Paulo II, que a tornou padroeira da defesa da vida.

Surpresos com aquele relato, ficava agora a pergunta. Qual motivo teria levado aquela mulher, temente à Deus, a cometer tamanha loucura? Essa pergunta só foi respondida pela Polícia, depois de finalizadas as investigações.

Virgínia era uma mulher solteira que dedicou a vida às crianças, e à Igreja. Há mais ou menos 15 anos, teve um envolvimento amoroso proibido com um padre. O fruto dessa relação foi uma gravidez, interrompida por um aborto provocado, já que o relacionamento entre o casal nunca poderia ser descoberto.

Como consequência do procedimento abortivo, veio a infertilidade. Por isso, remoída pelo remorso e pela culpa, a mulher perdeu o juízo e roubou a primeira criança. Em uma lógica perversa e insana, para acobertar seu crime, espalhou entre os moradores que aquilo era culpa da maldição da “Maria Preta parteira” e, desde então, não parou mais de cometer seus bárbaros atos.

Ainda sob o impacto daquelas revelações, a cidade aos poucos foi retomando sua vida normal. Os corpos dos desaparecidos foram entregues às suas famílias para que fossem sepultados, e a bebê salva por padre Pio, devolvida à família bem e com saúde. Ninguém mais ousou falar de Maria Preta que, lenda ou personagem da história de Bocaina, foi absolvida dos crimes a ela imputados.

Quanto ao padre Antônio Pio, retornou para a Cúria onde um novo caso o aguardava, em sua nobre missão de investigar o sobrenatural, mas sobretudo de trazer a luz da verdade aos fatos.

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