O livro vermelho

A família Vaz Bragança era tradicional na região de Bocaina de Baixo, trecho histórico da Estrada Real. De origem portuguesa, teve entre seus próceres o Barão do Arresto, dono da maioria das terras do lugar, e colecionador de histórias, nem todas dignas de lembrança.  

Com a morte de seu último herdeiro, Antonio Vaz Bragança Neto, um octogenário sem filhos, foi indicado um interventor para cuidar do espólio, e atender aos termos testamentais, previamente definidos.

Para essa função foi indicado Marcelo Gonzaga, um jovem advogado que assumia pela primeira vez uma função como essa, dentro do escritório. Ao chegar na fazenda do Barrete, tratou de procurar o encarregado, para ter acesso ao imóvel, e começar seu trabalho.

-Bom dia, onde acho o Seu João?

-Dia moço, sou eu mermo. O Dotor deve ser o homi que veio resôver as coisa aqui.

-Sim, seu João. Me chamo Marcelo e serei o interventor que cuidará do espólio da família. O senhor pode me levar até a Sede? Ainda é possível pernoitar por lá? Vi que aqui é distante da cidade, e não gostaria de pegar essa estrada de noite.

-Oia Dotor, pode o sinhô pode, mais num acho boa ideia.

-Por que Seu João? A casa é assombrada? respondeu com ar de deboche.

-Sei não Dotor, só falei por falá. Vô abri a casa pro sinhô, Tá tudo arrumado lá.

Ao entrar no casarão Marcelo ficou boquiaberto. O lugar era ricamente decorado, e parecia congelado no tempo. Tudo estava arrumado, como se ainda houvesse vida ali. No canto da sala, dentro de um altar, ladeado por dois enormes anjos, um grande livro vermelho. Pensando se tratar de uma bíblia, perguntou ao homem.

-Seu João é a primeira vez que vejo uma bíblia tão grande  assim.

-Num é bíblia não sinhô, e é meior não buli ali não.

-Por quê? Perguntou o advogado.

-Coisa de gente antiga Dotô. Oia, esse aqui é o quarto do Sinhô. Agora licença que tenho que recoiê o gado.

– Está bem Seu João. Qualquer coisa lhe chamo.

Quando o homem saiu, Marcelo começou a andar por dentro do imóvel que era enorme. Ao entrar em um dos banheiros, reparou a torneira da pia entreaberta pingando, e a tolha de rosto molhada – estranho, pensou ele.

Sentou na enorme mesa de jantar, abriu sua pasta, e começou a analisar a documentação do espólio, para ter exata noção do tamanho do problema. 

Sem que desse conta, já estava entardecendo. O sol mortiço atravessando os vitrais da janela, coloriram o ambiente, transformando totalmente o clima. De repente, tudo começou a ficar sombrio. Se levantou, e acendeu todas as luzes, para  diminuir a sensação incômoda.

Sentou novamente na mesa, e continuou seu trabalho. Foi quando ouviu um barulho vindo da cozinha, como se alguém estivesse preparando algo – mas como seria possível se estava sozinho ali?  Se levantou, e foi ver o que estava acontecendo.

Chegando na porta, quase caiu para trás. O lugar estava cheio de vida, e de gente. Mulheres vestidas como as antigas negras das cozinhas, senhoras trajadas finamente  como em tempos passados. Entrou no cômodo, mas elas continuaram seus afazeres, como se ele não estivesse ali. De repente, um homem vestindo casaca, colete, calça e botas, entra no cômodo e pergunta:

-E então mulher? Está tudo pronto para a ceia de hoje?

-Sim meu Barão, da forma que o senhor aprecia.

-Negrinha, dê-me um gole de vinho.

-Tá bom Sinhô, respondeu uma serviçal acabrunhada.

Sem entender, voltou para a sala, e quase desmaiou de susto. O lugar antes vazio, agora estava repleto de homens e mulheres. Sentados à mesa, nos sofás, como se estivessem esperando algo. Foi quando o Barão entrou, e foi em direção ao livro vermelho.

-Caros confrades. Como fazemos há duzentos anos ininterruptamente, a confraria do Livro Vermelho se reúne para honrar a memória de nosso deus Balor. Antes de servirmos a ceia, passemos ao sacrifício memorial. Guardiães, tragam o convidado.

De repente, os anjos tomaram vida, e foram em sua direção. Sem que tivesse tempo de correr, o pegaram pelos braços, e colocaram diante do altar.

-Que isso? O que está acontecendo aqui? disse o homem assustado.

-Cale-se! Ordenou o Barão.

-Oh, grande Balor. Tu que és o grande líder dos Fomorianos, onipotente e poderoso, e guarda nossas almas pela eternidade, receba essa oferenda como prova de nossa devoção.

Então, o livro se abriu, e de dentro saiu uma grande labareda. Foi quando os anjos lançaram o homem dentro das chamas, que se apagaram em seguida, e ele se fechou.

Quando amanheceu no dia seguinte, Seu João entrou na sede em silêncio. Do advogado? Nem sinal. O empregado fechou a porta, e saiu sem olhar para trás, nem dizer uma palavra sequer. 

Deixe um comentário