Lykanthropía

Essa é mais uma daquelas estórias de interior, onde a Quaresma dos católicos ainda é cercada de lendas e invenções. De procissão de defuntos à meia-noite da Sexta-Feira Maior, até a aparição de assombrações na madrugada que antecede o sábado de Aleluia.

Num desses povoados muito beatos, existiu um tal de velho Nestor. Um homem já de idade avançada, que morava em uma tapera no Barro Preto, uma localidade deserta do vilarejo. Sem família e história, todos acreditavam que ele era louco. Só ia ao povoado, duas vezes por mês, uma delas para pegar mantimentos na venda do Anésio. Não trocava palavras, só rosnava, mas como o vendeiro já sabia o que oferecer, era dinheiro pra cá, e mantimentos pra lá.

A outra era na primeira missa, do último domingo de cada mês. Acompanhava a celebração, mas não comungava. Sempre em silêncio, acendia uma vela no velário. Mas o mais curioso era a maneira como deixava a Igreja. De costas para o Santíssimo, saía de cabeça baixa e de joelhos, com as mãos e os pés apoiados no chão, até chegar à rua.

Contam os mais antigos, que no ano em que o lugar sofreu várias tragédias – de tromba d’agua até o rompimento de barragem – no intervalo do nascimento do Nosso Senhor Jesus Cristo até a Quaresma, na Sexta-Feira da Paixão, a cidade foi acordada com a maior gritaria:

– Acode gente, a casa do velho Nestor tá pegando fogo!

Os locais correram com balde, enxadas e pás para apagar o incêndio, mas quando chegaram só restavam cinzas. Nem sinal de corpo, ou do velho. Em sua memória, foi celebrada uma missa de corpo presente no domingo de Páscoa. Ninguém nunca mais teve notícia do homem – se vivo ou se morto.

Desde então, a cada Sexta-Feira Santa era possível escutar um uivo de lobo pelos arredores. Há quem diga ter avistado uma criatura andando ajoelhada, com as mãos e os pés apoiados no chão, exatamente como o velho fazia nas missas. Verdade? Mentira? Vai saber, na dúvida melhor fazer o sinal da cruz. Esconjuro, e que Nossa Senhora do Perpétuo Socorro nos proteja!

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