Capitu

Otaviano tinha acabado de morrer. Naquela sala, via as pessoas em torno do caixão – umas chorando, outras comentando o motivo de sua morte.

– Dizem que foi suicídio, mas a família quer abafar – especulava uma carpideira.

– Suicida? Eu? Essa mulher só pode estar louca.

No outro canto da capela, sua mulher parecia perdida no espaço-tempo, certamente ainda em choque pela tragédia. Na hora de fechar o caixão, ela se aproximou do corpo e não esboçou reação, nem uma lágrima.  

– Estranho isso – pensou o morto.

As pessoas começaram a sair, então ele viu um sujeito sentado em cima de uma sepultura, que lhe perguntou:

-Você não vai com eles?

-Tá falando comigo? – disse surpreso.

– Claro, você acha que é o único defunto aqui?

– Único não, mas não imaginava encontrar com outro. Você tá aqui há muito tempo?

– Ah, mais ou menos uns trinta anos.

– E morreu de quê? 

– Morte matada. E você?  Perguntou a alma penada.

– Eu? Sabe que até agora não sei? Disseram lá no velório que me matei, mas nunca faria isso. Nem teria motivos – tinha uma boa casa, condição financeira e uma mulher linda que me amava.

– Xi, então foi morte matada.

– Que isso cara, tá doido? Retrucou irritado.

-Tá bravo por quê? Se você não estava doente, não se acidentou nem se matou, é só juntar lé com cré. Qual é a última coisa de que se lembra?

– Deixa eu ver. Eu tinha acabado de almoçar. Minha mulher fez a sobremesa que eu mais gostava, depois não me recordo de mais nada.

– Tá vendo? Agora você já sabe até quem te matou.

– Não é possível? Ela me amava muito.

– A minha também. E me deu estricnina pra beber, misturada com cachaça. Aí cheguei aqui.

– Meu Deus, será que isso é possível? E porque ela faria isso?

– Dinheiro, e provavelmente com a ajuda de um amante.

– Amante? 

De repente um filme começou a passar em sua cabeça. E a figura de Roberto, seu sócio e melhor amigo. veio à tona. Os olhares dele para Silvia, sua esposa. O carinho excessivo dela com ele. Um ódio começou a subir dentro de Otaviano.

-E o que faço agora? Perguntou ao morto falante.

-Ora, se vinga dela e dele. É um direito capital seu, enquanto marido traído. Te garanto que se for até sua casa, vai encontrar os dois juntos agora.

Como que na velocidade do pensamento, ele e o alma penada chegaram em frente a uma casa muito bonita. Na garagem o carro de Silvia, e o de Roberto.

-Tá vendo? Disse o espírito de porco.

A raiva era tão grande, que ele parecia estar em chamas. Num piscar de olhos, estavam os dois dentro da sala, onde encontraram Silvia abraçada ao sócio, que acariciava seus cabelos, enquanto ela chorava.

– Desgraçados. Como puderam fazer isso comigo? Disse inconformado.

– Calma, Silvia, vai ficar tudo bem agora. Tranquilizava o amigo urso.

– E agora Roberto? Como vou viver com essa culpa? Resmungava a viúva traiçoeira.

– Você fez tudo o que podia fazer. Ninguém vai te cobrar nada. Consolava o descarado.

– Basta! Não quero ouvir mais nada. Como faço para acabar com os dois? Bradou o transtornado falecido.

-Mata eles ué? Respondeu o fantasma.

-Mas como faço isso se estou morto, porra?

-Você é burro ou o quê? Acha que morto não faz estrago? Tá vendo aquela vela acesa ali no oratório? Derruba ela.

E assim foi feito. A vela caiu e o fogo tomou conta do cômodo. Silvia e Roberto se abraçaram assustados, enquanto o sócio tentava proteger a viúva.

-Agora trava as janelas e as portas. Ordenou o secretário do Belzebu.

E assim foi feito. As chamas consumiram o casal, que queimou junto um do outro.

-Morram desgraçados. Tô aqui no inferno esperando vocês! Gritava Otaviano, enquanto gargalhava de satisfação.

Sobre a mesa da sala, um atestado de óbito em brasa indicava a causa mortis– Acidente Vascular Cerebral.

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