Certamente quem é do interior, ou por lá já viveu, deve ter escutado muitas histórias sobre a Quaresma. Esse período de jejum para os católicos, que se guardam em penitência até a Páscoa, no imaginário popular é recheado de lendas e folclores.
Lá de onde eu venho, me contaram um desses causos sobre as quadragésimas, que de tão fantástico, até parece mentira. De toda forma, como é melhor acreditar desconfiando, vou relatar a estória que era mais ou menos assim…
Há muito tempo, no Desterro de Baixo existiu um padre amargo e ranzinza, que foi expulso da cidade na base do porrete. Isso não sem antes praguejar que durante a Quaresma, as criaturas da mata, se reuniriam em concílio para julgar os pecados dos moradores. E aqueles que não estivessem em penitência cumprindo o jejum, teriam um destino terrível.
Naquelas bandas existia um tal de Onofre, homem curioso e desconfiado, que resolveu enfrentar a praga do padre expurgado.
– Ceis são tudo um bando de borra bota. Acreditá nessa história de Padre e de Quaresma? Só bobo memo pra bota fé nisso!
Dizia pata os amigos, numa roda de pinga, na venda do Joaquim.
– E pra prová proceis, que isso é tudo conversa fiada, amanhã é Sexta-feira da Paixão – eu vo afunda a noite no mato adentro, pra mostrá que essa história de bicho que leva gente, é tudo conversa pra boi dormi!
O bravo falastrão estufou o peito, enquanto a plateia admirava a coragem do homem, que resolveu encarar a maldição, que acompanhava a história daquele povo desde muito.
Eram onze horas da noite. A cidade inteira se reuniu no Largo da Matriz, para acompanhar a saída do aventureiro em sua jornada rumo ao desconhecido. Onofre, todo cheio de si, subiu no coreto e fez um discurso em tom desafiador.
– Olha aqui cambada de homi froxo. Hoje eu vo prová proceis tudo que essa balela de Padre e de Quaresma é coisa de maricas. Amanhã, quando eu voltá aqui, às nove hora, antes da Missa, oceis vão conhecê a verdade.
De forma triunfal, ele desceu do coreto, e saiu rua afora em direção à Mata da Fornalha, o lugar mais escuro e assustador da cidade, onde até de dia as pessoas botavam medo de entrar, pois, segundo os antigos, lá tinha onça e mula sem cabeça.
Chegando na boca da Mata, o machão sentiu um arrepio gelado na espinha:
– Eita, que raio é isso!
Parou, pensou mas o brio o impediu de dar meia volta. Então, tomou coragem e entrou naquele mataréu, de onde só se ouvia o piado das corujas.
Segundo reza a lenda, a Mata da Fornalha tinha esse nome, porque no meio dela existiria um buraco de onde saía fogo o tempo todo, vindo diretamente das profundezas do inferno. Se é verdade ou não? Difícil saber, até porque aqueles que tentaram descobrir, nunca voltaram para confirmar.
Mas voltando ao Onofre, depois de muito caminhar sem rumo no escuro, ele viu uma luz bem lá no fundo, e começou a ouvir uns barulhos, sem saber distinguir se era de gente ou de bicho.
Chegando mais perto, se escondeu atrás de uma árvore, e viu um buraco enorme, de onde saía fumaça e fogo. Em volta dele estavam sentados uma Onça, um Bugio e, no centro, a Mula sem Cabeça. O corajoso, mais do que depressa, fez o sinal da cruz e o esconjuro, e se abaixou para tentar entender o que eles estavam falando. A onça então disse:
– Senhora Juíza, honorável Mula sem Cabeça, já estamos prontos para começar mais uma sessão de Julgamento dos Pecadores dessa região. Peço permissão a sua honorabilidade para chamar o primeiro réu.
– Que assim seja feito. Tragam o primeiro caso. Disse com autoridade a criatura da mata.
Então, uma tropa de bugios veio escoltando a primeira alma pecadora. E qual não foi a surpresa do Onofre quando reconheceu o pobre incauto. Era João Floriano, o dono da banca de jogo do bicho, que também fazia as vezes de agiota, quando alguém precisava de uns trocados:
Os macacos, então, apresentaram ao Bugio, sentado ao lado da Mula, o assustado homem.
– Senhor Chefe da Tropa, Bugio Maior, está aqui o homem para que seus pecados sejam julgados.
Assim se pronunciou o primata:
– Honorável Juíza, aqui está o primeiro caso da noite. Este homem, pecador contumaz, avaro e egoísta, expropriou até o último vintém daqueles necessitados, que buscavam com ele algum recurso. Diante do altar, na Quarta-feira de Cinzas, se comprometeu como penitência a ser generoso, e repartir por 40 dias seu pão e seu dinheiro, com todos que o procurassem.
Então, a Mula sem Cabeça se levantou, e perguntou ao assustado pecador:
– O que você tem a dizer em sua defesa?
– Sou inocente dona Mula. Respondeu trêmulo o banqueiro.
– Mentira, bradou a Onça.
– Esse homem, Honorável Juíza, não cumpriu nem um dia que fosse com a penitência prometida. Ao contrário, ontem mesmo mandou buscar na casa de uma senhora doente, o único bem de valor que ela tinha, como forma de pagamento por uma dívida contraída.
Então, a cabeça da Mula se encheu de fogo, e ela falou exaltada:
– Canalha, patife, és um pecador. E como castigo serás jogado dentro da Fornalha. Bugio, que seja cumprida a sentença.
A um sinal do Bugio Maior, a tropa lançou o homem dentro do braseiro, sem que ele tivesse tempo de esboçar qualquer reação.
– Tragam o próximo caso! Ordenou a Juíza.
Mais uma vez, os soldados entraram escoltando um réu. Dessa vez era uma senhora, muito revoltada que se debatia e gritava:
– Me soltem, eu não fiz nada! Vocês pegaram a pessoa errada!
Quando Onofre a viu, quase caiu para trás. A dona que vinha entrando era a Dona Matilde, a maior fofoqueira da cidade, que nas horas vagas se disfarçava de beata.
– Silêncio, gritou a Onça. Pare com esse escândalo, não tem erro nenhum acontecendo aqui. A única pessoa que não fez a coisa certa foi você, sua intriguenta!!
E continua, esclarecendo:
– Honorável Juíza! Essa que agora quer se fazer de santa, que vivia na sacristia da Igreja lambendo as barras da batina do Padre, fora do Templo era a maior fofoqueira da cidade. Tanto assim, que na confissão das Cinzas, o próprio pároco lhe deu como penitência, não mais falar da vida alheia durante o jejum.
– E sabe o que ela fez Juíza? Continuou em sua sanha, derramando fel e maledicência. Ontem mesmo, ela conseguiu separar um casal, juntos há mais de 10 anos, graças a uma fofoca que disseminou na cidade, acabando com a reputação de um homem digno e de família. Mande essa víbora peçonhenta queimar nos quintos, Honorável!
De um pulo só, a Mula sem Cabeça levantou enfurecida, e uma grande labareda de fogo saiu de sua cabeça, enquanto esbravejava:
– Tirem essa mulher da minha frente. Que ela queime nos umbrais do Inferno!
Dessa vez a pecadora não se entregou sem lutar, esperneou, xingou e até babou como uma bruxa de Salém. Quando os soldados a jogaram na fornalha, podiam-se ouvir gritos e lamentos, vindos de dentro da cratera.
De tão assustado, Onofre deu um grito, e acabou entregando sua presença. Quando se deu conta, o Saci já estava atrás dele prendendo suas mãos com um cipó, e conduzindo o intruso à presença do Tribunal de Julgamento.
– Quem és tu, intruso? Perguntou a incomodada Mula sem Cabeça.
Antes que ele tivesse tempo de se explicar, o Bujio se apressou a apresentá-lo:
– Ora ora, que surpresa, Honorável Juíza. Esse seria o nosso terceiro, e último caso dessa Quaresma, porém, nossos homens bateram toda a cidade de Desterro, e não o encontraram. E não é que ele estava mais perto do que imaginávamos?
Tentando se justificar, Onofre gaguejando responde:
– Ma Ma Mais eu num fiz nada, num rôbei nem explorei ninguém, num falei mal, nem destruí a moral de ninguém. Num sô pecador, sô homi temente a Deus.
– Mais um falseador! Riu de lado a Onça! – Ô terrinha de gente cheia de pecado, Senhora Juíza. Mas sou muito paciente, e faço questão eu mesma de contar a história desse pé de cana!
– Realmente, ao contrário dos outros dois, esse não tentou contra a vida, ou a dignidade de ninguém. Temente a Deus? Muito. Tanto o é que rogou a Santo Antão uma graça – sofria de cirrose, graças a uma vida de abuso com a bebida – e foi atendido.
– Na sua penitência da Quarta-Feira de Cinzas, prometeu que não iria colocar uma gota de álcool na boca. E cumpriu o prometido?
– Claro que não. Não houve um dia em que não tivesse bebido – é um grande traidor, talvez um dos piores, pois traiu a confiança de um Santo que atendeu de bom coração, à sua súplica. Seu destino, Juíza, deve ser o mesmo dos outros dois!
– Que seja cumprida a sentença capital. Soldados, joguem o traidor na Fornalha! Decretou a Mula sem Cabeça.
Entre gritos de horror, medo e dor o ex-valentão sentiu seu corpo queimando, até chegar ao fundo da cratera, e dele não se ter mais sinal.
No dia seguinte, na hora combinada, às nove da manhã, em frente à Igreja e antes da Missa, a cidade toda se reuniu para aguardar a volta do explorador, que esclareceria a verdade sobre a Mata da Fornalha. Passou nove, passou 10, acabou a Missa e nada do homem aparecer.
Depois daquele dia, na cidade de Desterro ninguém mais soube falar do paradeiro do João Floriano, da Dona Matilde ou do Onofre. Verdade ou mentira? Melhor esperar a próxima Quaresma para descobrir se a praga do Padre, realmente caiu sobre o lugarejo.