Maio

Gracinha era uma moça recatada, e muito religiosa. Ela e Carlos Augusto se conheceram ainda crianças, e o namoro começou aos quatorze anos. De lá para cá, quinze longos anos se passaram – entre namoro e noivado, mas, finalmente, no dia treze de maio, dia de Nossa Senhora de Fátima – sua madrinha de consagração – seu grande sonho se realizaria, tornar-se esposa do único homem que amou em toda sua vida.

Muito prendada, bordou cada peça do seu enxoval com as iniciais do casal – G&G – dos panos de prato da cozinha, até as fronhas dos travesseiros, não se esquecendo das tolhas de banho e de rosto que ela e o futuro marido usariam. Quanto ao vestido, esse tem história – foi feito à mão pela sua avó Tereza, especialmente para o matrimônio de sua mãe Jorgina. Como era a primeira filha de quatro a se casar, ficou para ela o privilégio de usar a peça feita exclusivamente para sua mãe.

Professora por formação, sempre gostou de crianças, por isso mesmo dava aulas na zona rural da cidade, onde também era catequista na paróquia de Nossa Senhora de Lourdes. Contudo, já havia prometido ao noivo que, tão logo se casassem, largaria o emprego para cuidar apenas da casa, do marido e dos filhos que aguardava Deus lhes mandasse, com ansiedade.

Moça casta e virgem, orgulhava-se em dizer que só havia beijado um homem em sua vida – Carlos Augusto – com o qual nunca mantivera nenhum um tipo de intimidades, que não fossem aquelas próprias de um casal de namorados – mãos dadas, abraços respeitosos e beijos sem indecências. Aliás, de fato, ele nunca a havia tocado em parte alguma do corpo, nem tampouco nunca ficaram a sós. Nas viagens, ou nos encontros para o namoro, sempre havia alguém da sua família – mãe ou irmãs, ou então o Beto – primo de Carlos Augusto e seu quase irmão – que foram criados juntos, e juntos sempre estavam.

Aquele foi um início de ano muito agitado. A família havia combinado de viajar para a praia no Réveillon, mas como o pai de Gracinha adoecera, e as irmãs haviam desistido do passeio, foram apenas ela e Carlos Augusto, e o Beto, já que o apartamento estava alugado, e não havia como cancelar o negócio. Além disso, essa seria a última virada de ano em que passariam solteiros, por isso era importante não perder a oportunidade. Dormiram no mesmo quarto, seu noivo e o primo, e no outro dormiu ela, sozinha.

No dia 30 de dezembro, véspera do Ano Novo, enquanto caminhavam pela praia, Carlos Augusto cortou o pé em um caco de vidro na areia. Como estava sangrando muito, Beto o levou a um pronto socorro, e Gracinha retornou para o apartamento, preocupada com o noivo.

Quando chegaram, ela levou um baita susto – o corte tinha sido mais profundo do que parecia, e o rapaz teve que levar quinze pontos, ficando com o pé todo enfaixado. Por conta disso, não poderia tomar banho sozinho, mas o primo Beto, sempre muito cuidadoso, logo se apressou em assumir a função de ajudá-lo com a higiene pessoal.

– Pode deixar Gracinha que eu cuido do Guto pra você. Prontificou-se o solícito parente.

A virada de ano, e os fogos na praia, acompanharam da sacada do apartamento, já que o rapaz não poderia colocar o pé na areia – ela, Carlos Augusto e o primo.

De volta à cidade, e com o noivo recuperado, a vida retomou seu curso. Gracinha esmerando-se nos preparativos para o matrimônio, enquanto Beto e Carlos Augusto se encarregavam de cuidar da reforma, e da compra dos móveis da futura casa dos noivos. Pela primeira vez, em quinze anos, surgiu em sua cabeça uma sombra de dúvida e, perguntou ao noivo intrigada:

– Carlos Augusto, posso te perguntar uma coisa?

– Pergunta, o que você quer? Responde o noivo desinteressado.

– Porque é que o Beto está te ajudando a escolher as coisas da nossa casa? Isso quem tinha que fazer não era eu e você?

– Ah, é isso? Deixa de bobagem Gracinha. O Beto tem muito mais bom gosto do que você, além disso é meu padrinho de casamento, ou será que você já se esqueceu disso?

Sem jeito, a moça responde:

– Desculpa meu amor, não perguntei por mal. Eu sei que você confia muito nele, não vou te incomodar com isso mais, tá?

Na verdade, a relação de proximidade entre os primos já tinha sido notada até mesmo na Igreja. Aos domingos, quando iam à missa das nove, sentavam num banco a Gracinha com suas irmãs, e no banco da frente Carlos Augusto e o primo. Sempre que alguém maldava tal comportamento, a moça respondia brava:

– Deixa de bobagem, o Carlos Augusto é muito religioso e respeitador, por isso não se senta perto de mim e de minhas irmãs. Quanto ao Beto, eles são quase irmãos!

O mês de março era muito especial, afinal, no dia dez seu amado completaria 30 anos. Toda cuidadosa e prendada, a moça organizou uma festa surpresa – fez todos os doces e salgados que ele mais gostava, e encomendou um bolo com o tema do time do coração do nubente. No dia da festa estavam presentes os familiares, amigos e o Beto. Quando o rapaz chegou, não deu muita atenção para Gracinha, e foi logo tratando de ir comentar com o primo o tema do bolo – já que os dois torciam para o mesmo time.

Na hora dos parabéns, outra decepção.

– Para quem vai o primeiro pedaço? Perguntaram os parentes e amigos.

– Olha, o primeiro pedaço de bolo vai para a pessoa que está sempre ao meu lado, me ajudando em tudo que preciso!

Os olhos de Gracinha brilharam, e então veio a surpresa.

– O primeiro pedaço é pra você, Beto!

Muito desconcertada, ela tentava se convencer – é, eles são quase irmãos, foram criados juntos – enquanto os primos se abraçavam efusivamente.

E finalmente chegou a semana do casamento. Seu coração estava aos pulos, não se aguentando de tanta ansiedade, afinal foram quinze anos de expectativa e preparativos – ela agora se tornaria esposa do homem da sua vida. Na véspera, tornara-se oficialmente senhora Passos, sobrenome do marido que passou a assinar no registro civil. A cerimônia foi rápida, e com poucos parentes. Como sua testemunha, assinou sua irmã mais nova, e pelo lado de seu noivo – agora marido – o primo.

No dia seguinte, mal o sol nasceu, ela já estava de pé. Afinal, tinha que ir à Igreja acompanhar com as irmãs a decoração do espaço, confirmar com os músicos a sequência das músicas, e com o cerimonial a ordem de entrada das damas, pajens e dos padrinhos. Ao meio-dia era hora de cuidar da sua beleza, para que estivesse linda, e perfeita, para encontrar o seu marido no altar, às sete da noite.  

Então, o grande momento chegou. Muito emocionada viu seu pai com os olhos marejados, acompanhá-la até o altar, enquanto a Igreja lotada comentava a beleza, e a história do seu vestido. Carlos Augusto a recebeu das mãos do sogro, com um beijo na testa, enquanto o Padre iniciava a celebração.

Durante sua homilia, o pároco falava sobre a importância da confiança e da lealdade entre um casal, e que esse era o segredo para uma vida feliz, e harmoniosa. Como de costume, antes da benção das alianças, o celebrante fez a tradicional pergunta à assembleia:

– Se existe alguém aqui presente, que tenha algo que possa impedir essa união, que fale agora, ou se cale para sempre!

O minuto de silêncio foi quebrado, abruptamente, por um grito de Beto:

– Espera Guto! Você não pode fazer isso com a gente. Eu te amo, você não pode casar com essa mulher aí!

Atônitos, todos ficaram boquiabertos com aquela declaração. Quase sem cor, ela vira para o rapaz e pergunta:

– Que história é essa?

Num rompante de paixão, Carlos Augusto apenas olhou para a agora ex-noiva, deu de costas para todo mundo, e saiu correndo de mãos dadas com o primo Igreja afora, enquanto os convidados – entre risos e choro – acompanhavam aquela cena patética de novela.

Sozinha em frente ao Padre, a moça parecia perdida em suas lembranças, como se revisitasse cada situação em que havia desconfiado daqueles dois, mas preferiu se enganar, por achar que era tudo coisa da sua cabeça, ou maldade dos invejosos.

Ainda com o buquê nas mãos, desceu do altar e seguiu sozinha em um cortejo sinistro rumo ao desconhecido, enquanto a cidade inteira comentava o caso, da noiva trocada pelo primo do marido na hora do casamento. Ainda dentro da Igreja, seu pai brigava com os pais de Carlos Augusto, e sua mãe em – síncope – era acudida pelas irmãs.

Carlos Augusto e Beto não foram mais vistos na cidade. Segundo as fofoqueiras de plantão, eles mudaram para o Uruguai, onde se casaram e estavam em processo de adoção, aguardando a chegada de um casal de irmãos órfãos da guerra, vindos da África.

Quanto à Gracinha? Ela virou lenda e motivo de deboche por toda a cidade, afinal, como não percebeu que seu namorado, e noivo, era gay? Nunca se tocaram, ele nunca demonstrou carinho e ainda tinha o Beto – que sempre foi uma sombra na vida dos dois. Dizem que depois do vexame na Igreja, ela saiu como que catatônica, ainda vestida de noiva e com o buquê, em direção à estrada. Ainda hoje há quem diga que é possível avistar à noite, caminhando lentamente no acostamento, uma mulher vestida de branco, como se estivesse indo em direção ao altar. Surgiu daí, a lenda da Noiva Andarilha.

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