Passados os festejos da virada, começa a depressão do início de mês, que se completa com a ressaca do novo ano, misturada com os problemas do anterior que não se resolveram, acrescidos agora das providências que tenho que tomar logo na primeira semana – Pulta que los Parilo! Para o ônibus que eu quero descer, oh motorista!!
Então, sou gentilmente acordado com um carinhoso cutucão de Marisa, chamando para levar o Digby para fazer xixi no quintal.
– Levanta André, o cachorro quer mijar, e se ele sujar meu tapete, você quem vai limpar!
Linda forma de começar o ano – acordando de ressaca, com a chata da minha mulher mandando levar o raio do cachorro pra mijar! Sigamos.
Abro a porta da cozinha, e quase caio pra trás – parece que passou um furacão no meu quintal – então lembro que a festa da virada da “família” foi aqui em casa. É copo quebrado, churrasqueira suja, piscina toda cagada, cheia de bola – aliás queria saber quem foi o filho d’uma égua que inventou de decorar a piscina com bolas. Ah, lembrei. O babaca fui eu. Toma otário!
Enquanto o infeliz do cachorro roda pensando em qual mesa irá levantar a perna pra descarregar, sento na espreguiçadeira e acendo um cigarro, aproveitando aquele raro minuto de silêncio e paz em minha casa. Silêncio esse que é logo quebrado com a gritaria vinda do quarto das gêmeas – Antônia e Rafaela. Minha amada esposa delicadamente grita, ainda repousada na cama:
– André as meninas estão brigando! – como se eu já não tivesse percebido isso.
Apago meu cigarro, ponho o cachorro pra dentro e vou resolver a primeira briga do novo ano das minhas princesas.
– Que foi Antônia? Por que você está brigando com sua irmã?
– Ah pai, você sempre dá razão pra Rafaela!
E começa a chorar estridentemente:
– Calma filha, o pai só está perguntando qual o motivo da briga.
– Rafaela por que você está brigando com sua irmã?
– Ih pai, essa menina é muito chata e fresca, só tá fazendo showzinho porque eu disse que o Cauã, do 6 A, falou que eu sou mais bonita que ela!
– Mas filha, vocês são gêmeas, idênticas, como é que uma pode ser mais bonita do que a outra?
– Tá vendo pai, você gosta mais da Antônia do que de mim!
E começa uma nova orquestra de choro estridente! Pulta que los Parilo, criar menina já não é fácil, gêmeas mais difícil ainda, e pré-adolescente, ninguém merece. Então agora sou eu quem grito.
– Marisa, suas filhas estão te chamando!
Antes que ela tenha a chance de me xingar, entro no banheiro, fecho a porta e sento no meu trono pra tentar ler as notícias do dia no celular – raros momentos de paz. Barro despachado, vou pro box, ligo a ducha e fico meia hora debaixo só curtindo o som da água batendo no meu corpo – ah se pudesse ser assim o tempo todo. Mas como tudo que é bom dura pouco, logo ouço a dona encrenca bradando na porta do banheiro.
– Morreu aí? Tenho que chamar o SAMU? O café está na mesa!
Desço e encontro minha linda família reunida, as meninas até parecem comportadas agora, minha adorável esposa me recebe com todo carinho.
– Senta logo na mesa porra, se o café esfriar não vou passar outro.
Ah, que dia feliz – 01 de janeiro, e pensar que o ano está só começando!
Findo o animado desjejum, é hora de encarar o quintal, enquanto Marisa destroça a cozinha. Não sei se você já passou por isso, mas o “bom” de comemorar a passagem de ano com toda a família reunida na sua casa, é que a “festa” (ou pesadelo, se preferir) nunca acaba com o término da queima de fogos em Copacabana, transmitida pelo Plim Plim. No dia seguinte, a parentada vem para os melhores momentos, com a sobra do peru, da farofa e do pavê, complementados com um churrasco à beira da piscina – só felicidade!
Rapaz, como alguém consegue sujar tanto assim um gramado? E olha – vomitaram dentro da lata de lixo? Meu Deus. Outra coisa, nunca mais faço festa usando aquelas tacinhas de plástico coloridas de Réveillon. Acho que uma mesma pessoa bebe em pelo menos três ao mesmo tempo, e ainda consegue quebrar as três. Têm micro pedaços de acrílico espalhados pelo gramado inteiro – ninguém merece!
Mas é hora de juntar forças para limpar a piscina – quem foi o idiota que permitiu encherem uma piscina de 40 metros quadrados com bolas coloridas? O mesmo idiota que está limpando! O mais surpreendente não é a sujeira sobre a água, mas sim o que eu encontro embaixo dela – de guimba de cigarro, até a parte de baixo de um biquini – mas como assim? Quem ficou pelado na festa e eu não vi?
Depois de muito esforço consigo colocar a danada pra filtrar, afinal, daqui a poucas horas vai estar cheia de gente, e suja novamente. Agora é hora de dar uma geral na geladeira. Colocar a cerveja nas caixas térmicas para que nenhum primo irritante reclame que a “gelada” está quente. Aí começa uma nova tragédia – o gelo acabou durante a madrugada, e eu não percebi. A questão é: onde vou achar uma casa de bebidas aberta no dia 01 de janeiro às 09 hs da manhã, para comprar gelo?
Puto da vida, entro no carro e começo a peregrinação. Meia hora depois, retorno com o pedaço de um iceberg da Antártida e coloco as Brahmas, Budweiser e Heineken pra gelar. Aliás, um adendo. Você já percebeu como existem marcas de cerveja hoje em dia, cara deve ter pelo menos umas vinte com diferentes sabores – malte, duplo malte, triplo malte, largen, pilsen – sem falar das Artesanais, caríssimas! Mas garanto que se você colocar dois copos diferentes sobre a mesa, e oferecer para um conviva tomar, vai achar que ambos vieram de uma “puro malte e lúpulo da Baviera” de 100 paus a garrafa. Vai entender?
Quintal arrumado, piscina limpa e cerveja gelada é hora de receber os convidados para o Black Friday do ano findo. Eu não sei se alguém já parou para fazer essa conta, mas sempre parece que no dia seguinte tem mais gente do que na noite anterior. Será que é um caso de multiplicação de parentes chatos, ou seriam os penetras chatos que invadem a sua casa acompanhando os parentes? Sei lá, mas já estou a postos com a barriga na churrasqueira, preparando a picanha, a fraldinha e a costela que vão encher o bucho do povo. Aliás, como alguém ainda consegue ter estômago para comer costela, depois de uma virada regada a champanhe, cerveja e caipirinha? E ainda pedir sobremesa?
Ah, esqueci de um detalhe que nunca falta nesses eventos familiares – o primo sem noção que traz pra sua casa um pitbull lata que, além de latidor, quer a todo custo cruzar o seu cachorro – será que o Digby é gay? E a festa está só começando.
Com a piscina cheia de criança, adulto e velho expondo suas carnes enrugadas, minha amada patroa lembra que eu ainda existo, me chamando docemente:
– André, seu burro! Você esqueceu que eu tinha combinado que você ia buscar a Tia Maria na casa dela? A velha tá aqui me enchendo o saco no ZAP, por que ninguém apareceu para pegar ela ainda!
Bom, quem combinou foi ela, mas quem paga o pato, e tem que ir buscar a matusalém fedendo a mofo sou eu.
– Tá bom meu amor, fala com a Tia que eu já estou indo!
Deixo o namorado da minha sobrinha (aquele novato, recém-chegado que quer agradar a família), no comando da churrasqueira, mas não sem antes tecer um rosário de recomendações, especialmente sobre a picanha, que é maturada, foi cara pacas, e não pode passar do ponto, senão ferra tudo. Mas tenho a impressão de que isso não vai prestar, ele tem cara de panaca, mas na falta de tu, vai tu mesmo!
Saio de carro e logo chego na portaria do prédio para buscar a velhota, que já está a postos, com cara de brava, e uma outra velha à tiracolo.
Logo que entra no carro, antes mesmo de dizer bom dia, a simpática Tia Maria começa a reclamar que esqueceram dela, como podem fazer isso com uma septagenária, que isso é uma falta de respeito e blá, blá, blá… bla, blá, blá… De repente, sinto um cheiro de peido azedo no carro, que está com o vidro fechado por causa do ar, e não aguento:
– Puta merda Tia Maria, a senhora peidou dentro do carro?
A velhota responde desaforada:
– Não fui eu, seu mal educado. Foi a Conceição, minha vizinha do 701. Coitada, ela não pode segurar senão dá dor nas costas, tem que peidar mesmo. Você não é capaz de respeitar os problemas de constipação de uma pessoa idosa?
Por sorte, já estava chegando na garagem de casa. Me apresso em descer do carro para não vomitar de tanto fedor. Enquanto Marisa vem receber a Titia, vou logo ver se o panaca do moleque não fez merda com a minha picanha.
– Oi Tio André, fiz tudo como o senhor pediu. Tá aí oh, a picanha está do jeito que o senhor queria!
Tio? Só faltava essa, mas para não parecer estúpido, agradeço ao moleque e assumo meu posto.
Já são mais de três horas da tarde, e depois de muita cerveja, calor e churrasco só faltava uma coisa para completar a festa – o barraco em família. E tudo começa porque o cunhado que é vascaíno, não gostou da brincadeira que o primo flamenguista inconveniente fez sobre o rebaixamento do time cruzmaltino no ano que passou.
Enquanto eles partem para as vias de fato, Marisa me dá outra bronca (acho que deve ser a vigésima do dia):
– André, seu frouxo. Você não vai fazer nada? Vai deixar seu cunhado apanhar?
Na verdade, era essa a minha intenção, assistir de camarote ao fight, mas depois de ser instado a me posicionar face ao ocorrido, entro com o bloco do deixa disso, separando a contenda com duas longnecks bem geladas, esfriando a cabeça dos lutadores, que logo se abraçam num pedido de desculpas típico de bebuns.
Graças à Deus! Os ponteiros do relógio marcam cinco horas. Depois de um dia de tortura, sol e apurrinhação o último parente se despede. Lembra da Tia Maria e da Conceição? Pois é, essas eu consegui despachar mandando o namoradinho da sobrinha levar em casa – e olha que ele foi todo satisfeito. Coitado, mal sabe ele dos problemas de constipação da Conceição, agravados por muita carne e cerveja.
Os portões se fecham, apago a luz do quintal, sem nem olhar para trás, para não ver o estrago e sofrer antes da hora. As meninas já estão de banho tomado assistindo TV na sala, Marisa está ao telefone falando com a irmã sobre os acontecimentos da tarde em família. Então, depois de um banho revigorante, sento na sala de jantar, abro uma gelada e vou ver as contas que tenho que pagar na semana – IPVA, IPTU, matrícula das meninas, material escolar e, opa, o que é isso aqui? Vejo um envelope com resultado de exame, com o nome da Marisa?
– Amor, você está doente e não me falou nada? Que exame é esse aqui?
– Ah, o exame, não te falei não? Com toda a agitação do Réveillon acabei esquecendo de te dizer, estou grávida, de novo! E continua o assunto com a irmã ao telefone, como se nada tivesse acontecido.
Meu copo de cerveja cai no chão junto com a minha sanidade. Grávida? De novo? Após 12 anos vou ser pai novamente?
– Oh seu motorista, para o ônibus que eu quero descer! E isso é porque o Ano Novo está apenas começando! Pulta que los Parilo!!!