Fevereiro

– Oi moça bonita, será que eu posso saber seu nome?

Geralda fica totalmente desconcertada com o gracejo. Realmente sua beleza chama a atenção por onde passa. A pele branca como as nuvens do céu, contrastam com o azul turquesa dos olhos, enquanto o loiro dos cabelos contorna um corpo esculpido a mão pelo mais talentoso dos artistas. Daquela boca rubra, como a casca de uma maçã, sai apenas um sopro em forma de nome.

– Me chamo Geralda. Enquanto sorri envergonhada.

O galante rapaz não se dá por satisfeito.

– Muito prazer então, Geralda. Me chamo Gustavo, Gustavo Aroeira, mas nunca te vi por essas bandas. É a primeira vez que vem passar o carnaval aqui no interior?

Ainda muito sem graça, a moça apenas acena com a cabeça no mesmo momento em que é puxada pela mão pela amiga que, percebendo as intenções do moço, a “salva” daquela situação embaraçosa.

Na verdade, aquela era a primeira vez, desde que se formara em Jornalismo, que viajava sozinha. Sempre muito recatada, sua vida foi dedicada aos estudos – aliás a inteligência era outro atributo que contrastava com sua beleza. Mas já era hora de se abrir pro mundo, e convencida por sua melhor amiga – Clarice – aceitou passar o carnaval numa cidade do interior, onde os festejos de Momo ainda eram mais sadios e seguros.

Com uma história de vida marcada por tragédias, Geralda se formou para escrever e discutir sobre a discriminação e o preconceito – dois estigmas que sempre a acompanharam desde o nascimento:

“…filha caçula de outros nove filhos homens do casal de lavradores Sebastiana e José, nasceu e cresceu em um sítio humilde, na zona rural de um lugarejo em Minas. Desde muito cedo foi cercada de cuidados por toda a família – tanto os pais, quanto os irmãos, nunca deixavam a pequena sozinha, que por isso mesmo não teve contato, ou fez amizade com outras crianças de sua idade. Por esse motivo, o seu ingresso na escolinha foi atrasado. Mas, sem outra opção, começou a estudar aos cinco anos.

Muito tímida e introvertida, a pequena quase nem era notada na salinha cheia. No início e fim das aulas – bem como na hora do recreio – a menina sempre estava acompanhada por, pelo menos, um de seus irmãos, que tinham com a caçula um cuidado maior do que poderia se esperar, em uma relação fraternal.

E assim os anos foram se passando. Sempre quieta, e sem amigos, Geralda foi vendo a sua vida mudar e, por conta dessas mudanças, sua “singularidade” começou a ficar mais evidente, tanto é que a mãe sempre lembrava à menina “que nunca deveria se mostrar sem suas roupas para ninguém, nem para as professoras”. Os zelosos pais conseguiram até um atestado médico, que a proibia de acompanhar as aulas de Educação Física.

Até que um dia, já com seus doze anos, o que a família lutou a vida inteira para esconder, foi descoberto: quando usava o banheiro da escola, achando que estava sozinha, foi surpreendida por um grupo de meninas que ao perceberem uma “coisa” entre suas pernas, saíram gritando pelo corredor afora que a Geralda era um menino. 

A escola virou um pandemônio, os irmãos começaram a brigar nos corredores para defender a irmã, e a confusão só terminou com a chegada dos pais que pegaram Geralda e os filhos e nunca mais foram vistos na região. Abandonaram o sítio, e se mudaram para o Norte do país, lá pras bandas do Pará, onde Sebastiana tinha parentes.

Mas ter paz não era o destino da pobre menina. Sem entender que a filha não era uma aberração, um castigo de Deus, seu José – o pai -, se entregou ao desgosto e à bebida, e acabou vindo a falecer pouco depois. A mãe, apesar de muito amá-la, também não conseguia lidar com a situação, nem tampouco com a revolta dos outros filhos, que culpavam a irmã por todas as desgraças da família.

Sendo assim, com pouco mais de doze anos, foi mandada de volta para Minas, para morar com a madrinha de batismo, que tendo posses poderia lhe assegurar a educação em uma escola especial, e era uma das poucas pessoas que conhecia a verdadeira história daquela família. Nunca mais voltou a ver a mãe, ou os irmãos. Se falavam apenas ao telefone, em poucas datas especiais. Sua vida seguiu cercada de mistério e isolamento. Nunca namorou, de tão recatada nunca conheceu o gosto de um beijo, ou o calor de um carinho. Muito inteligente sempre se destacou tanto na escola, quanto na faculdade, contudo, para evitar exposição, assinava seus trabalhos acadêmicos com um pseudônimo – XXY.”

– Você viu como o rapaz ficou interessado em você?

– Ficou nada Clarice, deixa de besteira, eu sou muito sem graça. Ninguém nunca se interessou por mim.

– Besteira? Então olha pra trás que a sua “besteira” está chegando de volta.

– Meu Deus! Disse a jovem com o coração em pulos.

– Dá licença, mas você não vai ficar livre de mim tão fácil assim não! Será que podemos conversar um pouco? Tomar uma cerveja?

Ainda sem acreditar no que estava acontecendo, a jovem aceita o convite, mas com uma condição.

– Tá bem, mas eu não bebo.

– Sem problemas moça bonita, tomamos um suco então – tratando logo de resolver o problema o despachado moçoilo.

Se afastando do barulho da banda de Marchinhas, o casal se senta em um banco da praça, enquanto saboreando um suco de laranja, começam uma história que marcaria para sempre a vida da doce Geralda.

Gustavo Aroeira era o filho varão de Antônio Aroeira – fazendeiro, político e um dos homens mais ricos e poderosos daquela região. Além da fama da família, o rapaz ostentava a pecha de ser o melhor partido da cidade, disputado pelas moças casadeiras. Mas com o compromisso o rapaz nunca quis assunto – sua fama entre os amigos era de garanhão e pegador.

O suco rendeu uma noite inteira de conversa. O moço se encantou pela beleza, mas também pelo bom papo de Geralda que – bem formada e vinda da capital – era muito diferente das “Mariazinhas” da roça. Quando se deram conta, a madrugada já havia chegado, e Clarice veio interromper os pombinhos – era hora delas voltarem para o Hotel – mas não sem antes o fogoso rapaz arrancar-lhe um selinho, e o compromisso de encontrá-la pela manhã, para apresentar os encantos da cidade.

No caminho, Clarice não resiste à tentação e pergunta a amiga:

– E aí? Rolou?

– Deixa de ser boba Clarice, rolou o quê?

– Ah Geralda, não se faz de sonsa. O moço é bonito, está afim de você, vai dizer que não rolou nem uns amassos?

– Você sabe que eu não posso, Clarice. Não rolou nem vai rolar nada. Ele é interessante sim, mas não passou do que você viu, apenas um beijo roubado.

– Ah, tá bom, disse a amiga já entrando no quarto do Hotel, para descansarem daquele dia cheio de novidades.

Na manhã seguinte, pouco antes da hora do almoço, o rapaz já estava aguardando a jornalista descer para mostrar-lhe os encantos e a hospitalidade do interior, como prometido.

– Bom dia moça bonita! Pronta pra passear?

– Passear? Onde você pretender me levar? – perguntou desconfiada.

– Pode ficar tranquila, vou te mostrar a cidade, e se quiser a fazenda do meu pai. A hora que você se cansar de mim – ou do passeio – te trago de volta.

– Tá bom, então deixa eu avisar a Clarice.

Os dois saíram de carro e o encontro durou o dia inteiro. Já no final da tarde, depois de conhecer todos os pontos turísticos da cidade, o moço a deixou no Hotel, roubando-lhe um novo beijo.

– Calma aí Gustavo, você ainda nem me conhece direito. Não tome liberdades comigo!

– Desculpa Geralda, mas eu me comportei o dia inteiro, e olha que em se tratando de mim, isso é uma coisa rara. Só que você é tão bonita, inteligente e agradável que não consigo resistir à tentação de beijar essa boca linda e vermelha.

– Realmente tenho que reconhecer, você se comportou sim, e obrigado por me respeitar. Mas tem muita coisa que você ainda não sabe a meu respeito. Vamos devagar, por favor!

– Tá bom moça bonita, mas vamos nos encontrar na praça á noite? Hoje tem batalha de confete e serpentina. Posso te esperar no mesmo lugar?

– Ok, vou avisar a Clarice, e te encontro às nove então.

Naquela noite, pela primeira vez em sua vida, descobriu o gosto de um beijo, e o calor do corpo de um homem tocando o seu corpo. Foi como se, num passe de mágica, tudo de ruim tivesse ficado para trás. Ela que nunca sequer imaginou beijar alguém, se via agora entregue aos carinhos e abraços de um moço que acabara de conhecer. E essa era apenas a segunda noite de carnaval.

No outro dia, logo cedo, lá estava o ansioso rapaz aguardando a forasteira. Hoje ele iria apresentá-la aos seus pais. Era aniversário do patriarca da família e, por isso, um grande churrasco em comemoração pela data iria acontecer na fazenda.

Chegando lá, a moça se espantou com a opulência e riqueza daquele povo. O lugar estava cheio de gente, todos com cara de ricos e muito importantes. Mas Geralda não só causou boa impressão, como foi o assunto da festa – primeiro por sua beleza e boa formação – depois por nunca terem visto o jovem herdeiro tão cuidadoso e respeitador com uma namoradinha, quanto estava demonstrando pela moça da capital que já estava sendo tratada como “da família”.

Findou o dia, e a essa altura eles já eram um casal, andando de mãos dadas pela cidade, causando inveja nas “Mariazinhas” que se perguntavam quem era a forasteira que havia fisgado o melhor partido do lugarejo.

Geralda também já não conseguia esconder seus sentimentos, estava totalmente envolvida pelo rapaz, e não sabia como iria lidar com aquela situação. Ela tinha um segredo, e ele tinha o direito de saber. Mas como contar? Teria que passar por todo aquele pesadelo novamente?

Na terça-feira de carnaval acordou decidida a contar toda a verdade para o moço, mesmo que ele não entendesse ou aceitasse. Mas então ela é surpreendida na recepção do Hotel com o buquê de rosas mais lindo que já havia existido, acompanhado de um longo e apaixonado beijo. A emoção daquele momento a fez esquecer de todos os problemas do mundo. Saíram então para um novo passeio, que iria mudar toda a sua história.

No caminho, ela pergunta a Gustavo:

– Onde você vai me levar, moço?

– Ah, hoje é uma surpresa. Mas te garanto que é um lugar muito especial, na verdade é o meu lugar secreto!

– Secreto? Perguntou a moça intrigada.

– Sim, mas pode confiar. Se você não gostar voltamos pra cidade, tá bom?

– Tá bom moço bonito, você já ganhou minha confiança e meu coração.

Chegando em uma área afastada, na zona rural da cidade, ele abre uma porteira que os leva a um recanto mágico – a Cachoeira do Amor.

Parecia até cenário de novela, de tão lindo que era o lugar. Geralda logo fica encantada pela novidade.

– Esse dia será somente nosso, moça bonita – promete o apaixonado rapaz, enquanto tira da caminhonete quitutes e gostosuras preparados na fazenda, especialmente para aquele momento.

Tudo estava perfeito, o dia, o sol, aquela vibração – perfeito demais para ser verdade. A sensualidade e a vibração do lugar acendem nos seus corpos jovens a chama do desejo, e ele toma a iniciativa.

– Espera! Grita assustada a entorpecida moça.

– O que foi? Você não quer? Você não gosta de mim?

– Não é isso, eu quero, e quero muito. Quanto a gostar, nunca imaginei que sentiria afeto e desejo por alguém. Mas eu tenho que te contar uma coisa. Tenho uma singularidade que você precisa conhecer antes de seguirmos adiante.

– Minha jornalista linda, não existe nada em você que eu não vá gostar, você é perfeita, a mulher mais linda que eu já conheci nessa vida, quero você pra todo o sempre!

Depois de uma declaração de amor como aquela, não havia mais como ter dúvidas ou inseguranças, por isso Geralda se entregou aos carinhos e desejos do primeiro homem de sua vida.

Como costumam dizer por aí, “Amor de carnaval é pra vida toda”, é definitivo. No caso de Geralda, infelizmente, foi fatal. Seu corpo foi encontrado pela polícia, dois dias depois, após Clarice denunciar seu desaparecimento. Estava sem vida, todo machucado e com uma mutilação sinistra – dos seus dois órgãos sexuais, apenas um ainda estava preservado junto ao corpo. Quanto a Gustavo, foi mandado pela família para fora do país, e o caso abafado pelas autoridades locais.

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