Abril

Toni Figurinha era um sujeito esperto! Malandro por natureza, a vida lhe ensinou a dar nó em pingo d’água, não por menos conseguiu sair de uma infância muito humilde à condição de dono do laticínio da cidade, mesmo sem ter uma vaca sequer, e muito menos pasto.

Grota Grande era uma típica cidadela do interior, onde o tempo ainda era marcado pelo sino da Igreja, e a população – sem pressa – não se preocupava com inflação, guerras ou doenças. Dinheiro pegava emprestado com o Seu Biju, dono do açougue.

A única guerra que conheciam era a que acontecia na época da eleição, quando os dois partidos da cidade, literalmente, brigavam em praça pública, disputando voto a voto as cadeiras da Cãmara, e a Prefeitura.

Das doenças, quem tratava era o Doutor Benevides, um médico septagenário que fez nascer mais da metade dos moradores. Ele cuidava dos problemas do pai, da mãe e dos filhos – dizem que até dente já tinha extraído para aliviar um banguelo encariado.

E foi nesse ambiente que se criou nosso amigo, com pouco estudo, mas muita maestria para os negócios, nem sempre lícitos. Tanto assim que enricou, tornando-se uma das personalidades mais famosas da sociedade grotagrandense, o que lhe rendeu a alcunha de Toni Figurinha.

Um dia, vendo a movimentação da política na cidade decidiu que queria se tornar Prefeito. Então, durante uma prosa com Cardosinho, Presidente do Partido Conservador, definiu:

– Olha Cardosinho, se você me apoiar na próxima eleição todo mundo sai ganhando. Me comprometo a te passar, no primeiro dia de empossado, a licitação do transporte escolar, assim você vai poder colocar seus ônibus pra levar a molecada.

Cardosinho, na verdade, era Antônio Cardoso Neto, filho e neto de uma das famílias mais tradicionais da cidade, que fazendeiros falidos, fizeram dinheiro na área de transporte – primeiro de carga – e por último de passageiros, já que eram os donos da única viação do lugar. Seu irmão foi Prefeito, mas perdeu a última eleição para o Louzada, presidente do Partido Progressista, e atual Chefe do Executivo. Uma família e outra conservam uma rixa na política, que já dura para lá de 50 anos.

– Toni, gostei da sua proposta – respondeu Cardosinho. Mas você sabe que eleição aqui a gente não ganha só com a cédula depositada na urna, se não comparecer com a outra “cédula”, nem pra Vereador você se elege.

– Tá de brincadeira né, Cardosinho. Acha que eu nasci ontem? Tá tudo resolvido, e os maços já separados. Só preciso saber se você tá comigo.

– Mas tem um problema que a gente tem que resolver oh, Toni. O Paulão, Presidente da Câmara, é o maior traíra. Por culpa desse safado que meu irmão perdeu a última. Só que gosta de pagar de honesto. Como você vai fazer pra puxar os votos dele? E olha que são muitos!

– Pode ficar tranquilo que do Paulão eu dou conta. Já mandei vir um sujeito da capital, que vai fazer uns serviços pra mim. Mas e então, trato feito? No fio do bigode?

– Tamo acertado então, Toni. Do que depender de mim, e do Partido, você já tá eleito.

Uma cusparada na mão, e os dois acertaram a tramoia.

Na semana seguinte, chegou na cidade o tal sujeito vindo da capital. Era o Cabo Ferreira, um PM aposentado que prestava serviços como investigador e, quando necessário, até como despachante – despachando para os sete palmos, os desafetos de seus contratantes.

– E então Ferreira, tá pronto pra fazer o combinado? Perguntou Toni Figurinha.

– Sempre pronto e disposto, só me dizer o dia e a hora da tocaia. Respondeu o celerado.

– Então, o negócio é o seguinte. Toda sexta-feira o Paulão sai da Câmara, depois do almoço, e desce pro Sítio, pra encontrar com a amante. Eu quero que você faça desse jeito…

Na encolha, o aprendiz de político passa para para o mau elemento os detalhes do esquema sórdido, e fica acertado que na próxima sexta-feira, a demanda seria resolvida.

Enquanto isso, na casa do Prefeito, uma outra reunião sigilosa acontecia.

– E então Paulão, tamo junto ou não tamo? Perguntou nervoso o Louzada.

– Na última eleição eu combinei com você que os votos lá do Passaredo e da Matinha seriam todos meus, paguei – e bem – pelo serviço, e você me deixou na mão. Por pouco não perco pros merdas dos Cardosinho.

– Deixa de choro Louzada. Você foi eleito não foi? Agora esse povo é igual boi no pasto, por mais que você feche a porteira, um ou outro acaba estourando a cerca. Mas dessa vez, não vai ter erro não. Descobri quais foram os bois fujões, e já acertei o passo deles. Sua reeleição tá garantida.

– Se você me deixar na mão, de novo, você sabe que vai ter volta, não sabe?

– Deixa disso, homem. Já falei que tá tudo amarrado.

E aquele conluio termina em clima de tensão e ameaça. Paulão volta para a Câmara, e Louzada segue em viagem para uma reunião com um Deputado na capital.

Sexta-feira, depois do almoço, como de costume, o Presidente da Câmara pega o carro e desce para o Sítio. Chegando na propriedade, já era aguardado por uma fogosa companhia – deitada e nua em sua cama. Era Thereza de Albuquerque, mulher do Juiz da Comarca. O relacionamento extraconjugal já era mantido há mais de 7 anos.

Thereza era uma moça jovem e bonita. Terceira esposa do Dr. Caldeira, Juiz de Direito, que tinha fama de legalista, e amante da moral e dos bons costumes. Sessentão, se apaixonou por sua secretária, com quem se juntou, deixando para trás um casamento de mais de 20 anos. Dizem as más línguas da cidade, que o relacionamento era só de fachada, já que o notável Juiz não proclamava “uma sentença sequer” há muito tempo.

– Oh meu amorzinho, seu tchutchuco chegou, disse o empolgado Presidente do Legislativo Municipal.

– Então vem meu homem, me cobre igual seus bois cobrem as vacas no pasto. Disse a doidivana entumecida.

Começa o vuco vuco, entre gritos, tapas e gemidos. Sem que percebam, acompanhando toda a esbórnia, estava o Cabo Ferreira, que filmava e fotografava todo o coito, tendo o cuidado de garantir close ups nos amantes, de maneira a não restar dúvida quanto à materialidade da traição. Findo o serviço, o investigador retorna à cidade para prestar contas ao contratante.

– E aí, fez o que mandei? Pergunta o dono do Laticínio.

– Seu Toni. Comigo não tem serviço furado. Tá tudo aqui nesse cartão de memória. Foto e vídeo. Em detalhes, e com minúcias. Disse o eficiente investigador.

– Mas não tem chance de ele alegar que o vídeo foi adulterado? Pergunta o desconfiado aspirante a político.

– Olha só, Doutor. Eu tenho 25 anos de Polícia, e 15 de investigador. Só faltou tirar a impressão digital dos dois, tem foto de longe, de perto. Tem vídeo onde um fala o nome do outro, e inclusive cita literalmente o corno manso. Tá bom assim pro Senhor?

– Melhor impossível. Já depositei o resto do seu dinheiro. Agora some daqui.

E chegou a eleição. A cidade toda se cobriu de azul – cor do Partido Conservador, e vermelho – cor do Partido Progressista. Nas esquinas, no armazém e nos botequins não havia outro assunto – a entrada de Toni Figurinha na política, disputando a vaga de Prefeito com o Louzada.

No Paço Municipal, Louzada e sua equipe davam como certa a vitória, afinal tinham a máquina nas mãos, os votos no bolso e o Toni, ah, o Toni? Era só um malandro que se deu bem na vida, que não entendia nada do riscado, e resolveu se aventurar. Ia perder vergonhosamente, segundo os apoiadores do Prefeito.

Mas na Política, assim como na vida, nada é definitivo. Na semana que antecedia a votação, Toni marca uma audiência na Câmara com o Paulão, que, inocente na história, o recebe entre abraços e sorrisos.

– Ora ora, que prazer receber figura tão ilustre. Rapaz empreendedor, de sucesso que leva o nome de nossa cidade para além das divisas com o seu Laticínio. Saúda o pernóstico edil.

– Em que posso ajudá-lo meu querido? Completa, convidando Toni a sentar.

– Como vai meu nobre Presidente? Eu é quem me sinto honrado de estar em sua presença. Homem sério de nossa cidade, honesto e incorruptível. Mas na verdade hoje sou eu que vou lhe ajudar. Antecipa o espertalhão.

– Me ajudar? Como assim? Pergunta o desconfiado político.

– Olha só meu querido, você sabe que eu decidi entrar na política, mas sou novo, sem experiência e preciso aprender muito com autoridades como você. E pela minha pouca prática nesse ramo, que queria te perguntar, como faço para encaminhar esse material, que deixaram na porta da minha casa. E mostra no celular, o vídeo gravado por Ferreira.

O homem de mulato que era, ficou transparente, e caiu para trás na cadeira.

– E tem mais, tem até foto. Dando sequência ao show de horrores.

– E o que você quer em troca desse material? Pergunta o emparedado.

– O que eu quero? Nada meu amigo, estou só dividindo com você uma preocupação. Imagina se isso cai nas mãos de algum adversário político seu? Dos Cardosinho, por exemplo? Fala em tom de deboche.

-Tá bom, já entendi o recado. Agora sai da minha frente. Fala exaltado o pobre amante descoberto em ato libidinoso.

– Foi um prazer falar com você, Paulão. Nos vemos na Posse. E sai confiante na vitória.

De fato, a vitória veio sim, e foi retumbante. Até mesmo no Passaredo e na Matinha, os votos foram todos dele. Ao final da apuração, enquanto os Cardosinho e o novo Prefeito comemoravam, Louzada transtornado batia boca com Paulão, que tentava justificar o injustificável.

Na solenidade de Posse, Toni Figurinha, Prefeito eleito e empossado, proferiu seu discurso da vitória:

–  Meu povo de Grota Grande. Um homem que veio de baixo como eu, que passou fome, mas nunca perdeu a vontade de vencer na vida, que construiu um dos maiores Laticínios da região, e que emprega tanta gente dessa cidade bonita, quando que um homem como esse, poderia imaginar que, um dia, seria Prefeito? Nem nos meus melhores sonhos.

Hoje vocês me deram um voto de confiança, depositando nas urnas meu nome, em uma eleição transparente e limpa. Minha obrigação, então, é retribuir com muito trabalho essa oportunidade. E garanto! Grota Grande nunca mais será a mesma!

Quero também parabenizar o ex-Prefeito, o Louzada, pela disputa limpa, sem corrupção ou compra de votos, como tem que ser a política. Louzada, tamo junto!

Também não posso deixar de enaltecer o trabalho do nosso Presidente da Câmara, reeleito para mais um mandato, que tanto tem feito por nossa gente. Esse aqui é um homem íntegro, honesto, defensor da família e dos bons costumes. Te admiro muito, Paulão.

Por fim, quero agradecer minha família, aos amigos que me apoiaram e a você eleitor, que está me ajudando a realizar um sonho.

– Viva Grota Grande! Viva a Democracia!

O curioso dessa história é que a posse do novo Prefeito se deu em abril, no dia primeiro, data muito significativa do calendário, por ser reconhecida como o Dia da Mentira. Assim, nenhum eleitor poderá alegar no futuro, que foi enganado. Coisas de cidade do interior, tal como Grota Grande, onde ainda hoje as eleições são definidas através da “cédula” …

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