Julho

Ego da Silva Santos nasceu em uma pequena cidade do interior. Filho de família muito católica, ficou órfão cedo – o pai não conheceu – e foi criado pelo avô materno – Bento – que devoto Mariano, sempre dizia:

– Meu neto, nunca se esqueça. Em primeiro lugar suas obrigações e devoções com a Santa Madre Igreja, depois com a família!

O menino já nasceu predestinado a seguir a vida religiosa. Pouco antes da morte da mãe – ainda pequeno – foi prometido que se tornaria Padre. Talvez até por isso, virou coroinha muito novo, e sua brincadeira favorita era “celebrar” missas para os cachorros da casa, seus fiéis seguidores.

O tempo passou, e quando terminou o ginásio, o avô conseguiu com o Vigário um encaminhamento para o Seminário na capital, onde continuaria os estudos até ser ordenado. Na despedida, antes de embarcar, Bento fez questão de abençoá-lo, lembrando-o de suas obrigações:

– Meu filho, o vô está muito orgulhoso. Sua mãe, no céu, também deve estar muito feliz. Vá com Deus, e não se esqueça – nunca traia seus compromissos com a Igreja, nem com a família!

Muito tímido, apenas concordou com a cabeça, deu um último abraço no avô, e entrou no ônibus, deixando para trás toda a sua história.

A vida seguiu seu curso. O jovem logo se adaptou à rotina no Seminário, e ao final dos primeiros seis meses de internato, teve a oportunidade de passar férias com a família. Como estava com a saúde debilitada, Bento decidiu mandá-lo para a casa de uns parentes, que eram colonos em uma fazenda no interior. Mas Ego, com toda sua ingenuidade, nem imaginava o que estava por vir.

Ao chegar no lugar, foi logo percebido por Olga – filha de um falecido colono da propriedade, morrido de pouco. Em razão dos anos de serviço e confiança, os patrões tinham deixado ela e o irmão – Adonis – morando por lá, onde o moço já ajudava na lida, antes mesmo da morte do pai.

Olga era uma menina-moça muito bonita, morena cor de jambo e uma beleza quase selvagem. Apesar de contar apenas 16 anos, já causava atração nos jovens, mas também nos mais velhos. Era como se seu corpo transpirasse sensualidade, e seus olhos estivessem sempre cheios de lascívia, o que fazia dela uma presença pouco desejada pelas mães, e senhoras do lugar. Muito despachada, foi logo tratando de se aproximar do visitante:

– Oi menino, você que é o padrezinho que veio da capital?

Muito educado, e ingênuo, lhe respondeu:

-Sim, sou eu mesmo, me chamo Ego, Ego da Silva Santos. Muito prazer!

– Ih, você fala sempre assim? Pergunta curiosa.

– Assim como menina? Qual o seu nome?

– Me chamo Olga, mas é só Olga mesmo. Você já é Padre? Parece Padre falando.

– Ah, desculpa. Não sou Padre não, entrei esse ano no Seminário, mas se Deus quiser vou me formar e servir à minha Igreja.

– Eita, você é muito estranho, quer conhecer a fazenda?

– Quero sim, deixa eu só guardar minhas coisas.

Enquanto Ego entrava na casa dos parentes, Olga começou a reparar no corpo do jovem, com olhos de malícia e desejo.

– É, ele é meio chato e bobo, mas até que é bonitinho!

Na verdade, apesar de totalmente inocente, ele tinha uma aparência que chamava atenção. Seu corpo, já bem formado, destacava a pele muito branca, com traços finos e delicados. Seus cabelos eram negros, como a noite, e encaracolados – fazia lembrar a figura daqueles anjos barrocos, pintados nas paredes das Igrejas.

– Pronto, podemos ir? Perguntou o educado visitante.

– Bora então, e sai puxando o rapaz pelas mãos.

A propriedade era grande, cheia de ribeirões e cachoeiras. Chegando em um açude isolado, ela pergunta ao garoto:

– Você sabe nadar?

– Claro que sei, porquê?

Antes que pudesse se dar conta, Olga já havia tirado as roupas e pulado dentro d’água. Envergonhado, ele fica sem reação.

– Ou, você não vem nadar?

– Mas é que eu não estou de sunga.

– Deixa de frescura, e vem pra água!

Sem graça, tira as roupas e, muito desajeitado, entra no açude.

– Você nunca nadou pelado? Pergunta a fogosa cabocla.

– Pelado? Nunca.

– Vai dizer também que nunca viu uma menina pelada? Entre risos.

– Claro que não!!! Responde quase ofendido.

– Tá bom padrezinho, precisa ficar bravo não. Quer saber, você é muito chato, cansei de nadar, vamo embora!

Decidida, a oncinha brava sai do açude e vai vestindo a roupa sobre o corpo molhado. Sem entender nada, e muito envergonhado, Ego também sai e começa a se vestir.

Já era final da tarde quando chegaram de volta à casa dos parentes, e sua nova amiga já vai avisando a programação do dia seguinte:

– Oh, amanhã se apronte cedo, hein, que vou te levar pra nadar na cachoeira mais bonita da fazenda, tá?

Sem ter tempo para discordar ou concordar, ele vê a menina indo embora num galope, enquanto entrava para jantar e se preparar para dormir.

Logo que o sol nasceu, já estava ela na porta chamando para sair.

– Ô padrezinho, se apressa aí, quero aproveitar o dia e a cachoeira é longe!

Ainda com um pedaço de pão na boca, o jovem sai tentando acompanhar o ritmo acelerado da caboclinha.

Depois de quase uma hora de caminhada, chegam no lugar e, mais do que depressa, a menina tira suas roupas e pula n’água. Dessa vez, prevenido, o garoto tira o xort e dá um mergulho, vestido com sua sunga.

– Ué, você não vai nadar pelado hoje não? Pergunta maliciosamente.

– Não, porquê? Responde o seminarista.

– Como você é chato hein? Lá no Seminário vocês não nadam pelados não? Lá tem menina?

– Pelados? Nunca. Meninas só nos conventos.

– E você nunca viu os outros meninos pelados também não?

– Oh menina, você é meio doidinha! Claro que não. Porque eu deveria ver outro seminarista sem roupa?

– Ué eu já vi meu irmão pelado, a gente sempre nada junto sem roupa. Não vejo problema nenhum nisso.

Sem saber o que responder, e para fugir do assunto, o menino dá um mergulho. Quando tira a cabeça fora d’água leva um baita susto – Olga estava em sua frente, com o corpo nu encostando no seu. De repente, ela puxa sua cabeça, e lhe dá um longo e molhado beijo.

Pela primeira vez, aquele corpo virgem sentia os caprichos dos desejos carnais, e o gosto de um beijo em sua boca. Sem lhe dar tempo para reagir, a faceira menina pega a mão do rapaz, e coloca sobre seus seios macios e molhados.

Assustado, puxa a mão e sai correndo em direção à margem. Sem saber como lidar com aquela situação, tenta esconder o volume entre as pernas, que a sunga não consegue conter.

Com cara de deboche, ela pergunta ao envergonhado rapaz:

– Que foi? Você não gosta de meninas? Gosta é de meninos?

– Tá doida? Deus me livre. Isso é pecado!

– Mas você não gostou? Do meu beijo? Do meu corpo? Me achou feia?

– Não! Fala quase gritando, ainda sem saber o que responder. – Você é muito bonita sim, é que … eu nunca fiz nada parecido com isso!

– Nunca fez o quê? Beijar ou tocar em uma garota?

– As duas coisas. Responde ele, vermelho de vergonha e excitação.

Como uma onça no cio, ela sai d’água com o corpo em brasa, e pula em cima do moleque que não reage, e apenas deixa o instinto falar mais alto. Naquele momento sentiu prazer pela primeira vez, como todo homem deve sentir.

Entorpecido e dependente, desde então, passaram a se pegar na cachoeira, no açude, no pasto e até na rede da casa dela. Era como se nunca tivesse existido seminário, celibato ou Igreja. Seu corpo gritava por prazer, e Olga fez com ele coisas que nunca imaginou que um casal pudesse fazer na intimidade.

Até que um dia, foi surpreendido por uma cena que lhe roubou o chão. Ao chegar no ribeirão, vê sua amiga se esfregando em outro rapaz – seu sangue ferve de ódio e ciúmes. E então grita:

– Ou, o que vocês estão fazendo?

– Sem esboçar preocupação, ela vai até ele, tira sua roupa, e o arrasta para dentro do filete d’agua:

– Deixa eu te apresentar meu irmão, Adonis.

O peão era puro músculo, e nenhum cérebro. De fato, apesar de ser o mais velho, quem comandava a casa (e a vida incestuosa) era ela – então a menina se coloca entre os dois, sendo beijada por um, enquanto o outro a encoxava por trás. Daquele dia em diante, as brincadeiras ganharam um novo tempero – às vezes com Ego e Olga, em outras com Adonis e Ego, e muitas outras à três – em uma cópula pecaminosa e devassa.

Duas semanas se passaram e, como se o último grão de areia da ampulheta anunciasse o fim das férias, era hora da despedida – de voltar para o Seminário. Na hora de partir, visivelmente transtornado, ele não consegue conter as lágrimas, enquanto sua amiga – friamente – se despede com um beijo seco no rosto:

– Boa viagem, te espero aqui de novo nas férias de dezembro, tá?

De Adonis, apenas um aperto de mãos.

Entrando na condução o jovem estava perdido em um turbilhão de pensamentos – como viveria sem o calor e o cheiro do corpo deles? Ao mesmo tempo, sentia-se traído – Será que não sentirão minha falta também? Se perguntava inconformado.

“- Meu filho, o vô está muito orgulhoso. Sua mãe, no céu, também deve estar muito feliz. Vá com Deus, e não se esqueça – nunca traia seus compromissos com a Igreja, nem com a família!”

De repente, como que num lampejo de lucidez, lembrou-se das palavras de vô Bento, antes de embarcar para o Seminário:

Naquele momento se deu conta do que tinha feito. Como pode trair seu avô, desonrar a memória da mãe, e romper com seus votos de castidade? Parecia que nada mais fazia sentido – a culpa era toda dela, ela que o havia seduzido. Mas ao mesmo tempo em que tentava achar um culpado, seu corpo queimava por dentro, lembrando dos prazeres proibidos que acabara de conhecer.

– Meu Deus, o que foi que eu fiz? Desabafa em um grito mudo.

Chegando ao Seminário, visivelmente abatido, o Reitor pergunta se ele estava se sentindo bem.

– Estou bem sim, Padre. Apenas cansado da viagem.

– Então, suba para o dormitório guarde suas coisas, e descanse. Disse-lhe o preocupado regente.

Na manhã seguinte, Ego foi encontrado caído no banheiro, em uma poça de sangue, depois de cortar os pulsos, tirando a própria vida. Naquela noite entendeu que não conseguiria conviver com a culpa pelos seus erros, mas também com a falta que sentia de Olga e Adonis, por isso preferia expiar seus pecados no inferno, como um anjo caído que agora se tornara.

Quanto à fogosa menina? Na semana seguinte à partida do padrezinho, chegou na fazenda uma nova família de colonos – o pai, a mãe e uma jovem filha do casal. Seu instinto predador logo acendeu quando conheceu Clara dos Anjos, sua nova amiga – e objeto de desejo.

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