Soturnos

Oswaldo tinha acabado de ser nomeado. Cidade nova, colegas novos. Aquilo o incomodava, por conta das suas dificuldades de relacionamento. Logo no primeiro dia, um choque – sua turma era problemática: os piores do ensino médio.

A primeira aula foi um caos, no entanto, uma aluna chamou sua atenção: no fundo da sala, cabelos castanhos compridos, pele muito branca, e que não interagia com a turma, apenas o olhava fixamente. Finda a aula, todos começaram a sair, e quando reparou, já tinha sumido.

No dia seguinte, com um semblante triste,  a viu sentada na mesma carteira. Hora do recreio e todos correram, menos ela Então, Oswaldo se aproximou e perguntou.

– Qual seu nome mocinha?

– Alice, respondeu a jovem.

– Reparei que você não conversa com os colegas. Posso saber o motivo?

– Não gosto de gente. Respondeu com dureza.

Aquilo o balançou, pois também não se sentia bem com as pessoas. Fim do intervalo.  A aula recomeçou, mas a menina havia desaparecido. Então,  foi até a Secretaria, onde descobriu que não havia nenhuma Alice matriculada em sua turma. De tanto insistir, a secretária disse que deveria ser a aluna que tinha se suicidado. Mas esse assunto era proibido dentro do colégio.

Foi para casa com aquela história na cabeça. Buscou nos jornais, e descobriu que Alice tinha se matado por causa de um professor que abusou de sua inocência, e depois a desprezou. Por isso se cortou dentro do banheiro.

No outro dia, quando entrou na classe, lá estava ela novamente. Se aproximou e disse:

– Já sei quem é você, e qual a sua história. Só queria entender o porquê ainda está aqui.

– Estou aqui por sua causa. Você é a única pessoa em quem sinto confiança.

Depois disso, Alice nunca mais foi vista. Oswaldo também sumiu. Seu corpo foi encontrado dentro do banheiro de casa, com os pulsos cortados. Agora, ele e Alice vagam pelas sombras, como um casal estranhamente soturno, e perfeito.                    

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