Erato

Aquele era para ser apenas mais um dia na vida de Jordão. Ao chegar à escola, cumpriu seu ritual – assinou o ponto, pegou no armário os livros que usaria, higienizou com álcool suas canetas e apagador, colocou o jaleco, e seguiu para a sala-de-aula – em silêncio. Homem sistemático – e de temperamento difícil, solteiro e solitário, não gostava de pessoas. apenas de livros e de suas criações – era taxidermista.

– Bom dia classe. O tema da aula de hoje é mitologia grega. Vamos falar sobre as nove filhas de Zeus e Mnemósine.

Enquanto ajeitava as coisas sobre a mesa, percebeu uma agitação incomum na turma, que estava estranhamente ruidosa naquela manhã.

– Atenção alunos, a aula já começou. Posso saber o motivo desse burbúrio?

– Professor, é que a Tereza do 2A está desaparecida há cinco dias. O senhor não ficou sabendo?

– Desaparecida? Então é por isso que ela não tem vindo às minhas aulas, certamente.

– Estão desconfiados de que ela morreu, professor. Os pais encontraram seu celular jogado em uma lixeira, aqui perto da escola.

– Bobagem isso, vai ver que ela fugiu de casa com algum namorado, e não quer ser encontrada. Isso é normal entre vocês adolescentes.

Então, o aluno mais irritante e abusado da turma, Roberto, levantou a mão e perguntou:

– Professor Jordão, o senhor já desejou matar alguém? Ou já matou?

Enrubescido, o lente teve uma crise nervosa.

– Moleque petulante e mal educado. De onde você tirou essa ideia estapafúrdia? Você está me chamando de assassino? Como ousa, seu impertinente!

Transtornado e tremendo, o homem alegou um mal súbito, e encerrou a aula. Chamou a supervisão para cuidar da turma, e foi à direção. Pediu para ir embora, justificando a necessidade de procurar atendimento médico.

No caminho de volta para casa, sua cabeça parecia girar em um turbilhão de pensamentos e emoções. Não conseguia concatenar um raciocínio, suava e delirava, queria apenas chegar rapidamente.

Com sofreguidão, abriu a porta, entrou e fechou todas as cortinas, tirou o telefone do gancho, e foi direto para o quarto. Sentado na beira da cama, fitou longamente, depois tocou com carinho o rosto de uma jovem, desnuda e sem vida – era Tereza.

– Já voltei minha menina. Agora somos somente nós dois. Eu lhe prometo que nunca mais sentirá dor ou tristeza, nem tampouco irá envelhecer minha pequena. Cuidarei para que continue linda por toda a eternidade, sendo esse anjo que arrebatou meu coração e meu espírito. Ficaremos juntos até o fim dos dias, minha Musa.

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