Carpe Diem

“que toda viagem/ é feita só de partida”

(Paulo Leminski)

Theo e Rosana se conheceram no ensino médio. Da paquera entre adolescentes, até o sim no altar, bastaram apenas 10 anos. Ele médico, ela engenheira, agora eram um casal à espera do novo membro da família – Bento, que crescia sossegadamente na barriga da mãe.

A vida sorria dentro daquele lar, onde não faltava nada, e sobrava carinho e cuidado. Theo era amoroso nos pequenos detalhes. Do ramalhete deixado sobre a mesa, no café da manhã, até uma apaixonada declaração em via pública. Tudo sempre acompanhado de uma incomum assinatura – Carpe Diem.

-Amor você é maravilhoso, sou a mulher mais feliz, e amada desse mundo. Te amo. Disse Rosana em uma mensagem para o marido, ao abrir a janela do quarto, e dar de cara com a foto do casal junto de uma cegonha, que trazia um bebê em seu bico, estampada em um outdoor.

Naquele dia marcaram de se encontrar na hora do almoço, na clínica onde seria feito um novo ultrassom de Bento.-Tudo certo com o bebê, afiançou o médico.Claramente emocionado, acariciou a barriga da esposa.-Meu filho, você é meu presente de Deus. Papai vai te amar até o infinito, estando perto ou longe.

Como que entendendo o recado, Bento começou a se mexer no ventre da mãe.

-Olha amor, como nosso menino está chutando, vai ser craque de futebol. E os olhos marejados deram lugar aos risos de felicidade.

Meses depois, o herdeiro chegou enchendo a casa de alegria. O silêncio foi quebrado pela presença do recém-nascido. Theo acompanhou cada momento importante do rebento – do primeiro banho às noites insones de dor de barriga, deliciando-se em conversas intermináveis com o filho, durante a madrugada.

-Pois é filhão, o papai já te contou como conheceu sua mãe? Não? Então vou contar agora.

Eu era um pouco mais velho do que você, e tinha acabado de mudar de cidade. Estava vindo de uma escola particular, para uma pública. Quando pisei no 1A, a coisa mais linda que vi foi uma ruivinha sardenta, sentada na primeira carteira, da primeira fila, ao lado da porta. Meu coração quase parou. Não conseguia disfarçar meu encantamento. Depois disso, não houve um dia sequer em que não estivéssemos um ao lado do outro.

E assim o tempo foi passando. Bento crescendo, a família feliz e realizada, até que um dia tudo mudou bruscamente.

Eram quatro horas da madrugada, quando Theo começou a passar mal. Uma forte crise de tosse lhe tirou o sono, e a vida. Quando acendeu a luz do abajur, viu o sangue escorrendo pela boca. Do socorro médico, até o registro do óbito foram menos de 24 horas No atestado, a causa mortis indicava – hemorragia pulmonar.

A trágica história do rapaz começou logo depois de seu nascimento. Theo foi o filho desejado de pais ansiosos, que já haviam passado pela dor de quatro gestações perdidas. Porém, o sonho azul da família logo se tornaria um pesadelo. Com apenas três meses de vida, uma infecção renal levou a criança para a UTI, onde permaneceu por quatro meses, até que os médicos chegassem ao diagnóstico – síndrome do bom pastor, uma rara doença autoimune onde o sistema imunológico ataca os rins e os pulmões, levando a danos severos, ou até mesmo a morte.

Revertido o quadro infeccioso, seguiu a vida como uma criança normal, convivendo com visitas ao médico, até que a doença se estabilizasse ao fim da fase infantil.

Já adolescente, os pais lhe explicaram tudo sobre sua condição clínica, que não possibilitava prevenção ou cura, e deixaram um doído e definitivo recado para o filho:

-Theo, você é a realização do sonho de nossas vidas, mas não podemos lutar contra o destino. Essa doença é perversa e traiçoeira, por isso só desejamos uma coisa – seja feliz, e aproveite cada minuto, como se fosse sempre o último.

Pouco tempo depois, mudaram-se da capital para o interior, em busca de qualidade de vida para o jovem. E foi justamente na turma do primeiro ano do ensino médio, em uma escola pública de cidade pequena, que Theo se apaixonou por uma ruivinha sardenta, que viria a ser a mãe de seu filho, e o amor maior de sua vida.

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