Há muito tempo, chegou na estação da pequena Esmeraldas, um homem trajando um terno escuro, chapéu Panamá e calçando luvas verdes. Sua figura incomum chamou a atenção de toda a cidade. As fofoqueiras de plantão ficaram ouriçadas com sua presença. Dona Rute,a proprietária da pensão, se apressou logo em abordá-lo ainda na rua.
-Bom dia moço, sou a dona da pensão. O senhor vai pernoitar por aqui?
-Sim. – respondeu secamente o forasteiro.
-Ah, então vou lhe preparar o melhor quarto. Para solteiro?
-Certamente.
-Vai ficar muito tempo?
-O necessário.. – respondeu dando de costas para a fuxiqueira, enquanto seguia em direção ao Paço Municipal.
No passado, a exploração da gema preciosa enriqueceu a região, e muitas famílias tradicionais. Uma delas foi a do Prefeito, Doutor Waldir Peçanha de Sá Trigueiro.
Contudo, a cidade não era mais nem sombra do que já havia sido, e um dos motivos era justamente a família Sá Trigueiro. Falidos, mas ainda dominando a política local, mantinham a pose e as contas, graças ao erário público. Uma “Gestão familiar”- esse era o mote da administração.
Bastou o homem misterioso aparecer, para a vida do prefeito virar de pernas pro ar. Suas negociatas, tramóias, acordos e propinas foram parar nos postes, e nas caixas de correio. A cidadela virou um campo de batalha, nas ruas uns saíam em defesa do chefe do Executivo, enquanto outros pediam sua cabeça.
Jurando vingança ao caluniador, Doutor Waldir chamou a população para um pronunciamento, em frente à Prefeitura. Mas antes mesmo que pudesse começar a discursar, viaturas policiais entraram pela praça afora. De uma delas desceu o delegado, acompanhado do juiz da Comarca, e deu voz de prisão para o Prefeito, e toda sua trupe.
Da estação, o homem da luva verde aguardou o desfecho da história, e em seguida embarcou num trem para seu próximo destino, onde uma nova missão o aguardava.