TOC

Adalberto sempre foi um sujeito cheio de manias. Na hora do café, a xícara recebia 4 gotas de adoçante bem contadas, e a manteiga tinha que estar perfeitamente espalhada, em toda superfície da fatia de pão. Na mesa do almoço, os talheres deveriam estar corretamente dispostos: garfos à esquerda do prato, com os dentes voltados para cima, e as facas à direita, com o corte virado para dentro. Nunca ao contrário, ou em posição diferente.

As cuecas e meias na gaveta? Eram arrumadas em uma escala cromática, das mais escuras até as brancas. As sacolas de supermercado eram dobradas, até ficarem uniformemente compactadas. Os livros eram organizados na estante, com as lombadas em ordem alfabética. Mas sua maior cisma mesmo era com o cabelo. Cultivava uma cabeleira loira, com uma grande franja que era milimetricamente partida para a direita.

Até que um dia, Adalberto morreu de causas naturais. Na funerária, durante a preparação do corpo, o vestiram com o terno cinza (que já estava previamente separado, e identificado com uma etiqueta – post mortem), maquiaram seu rosto para tirar a palidez mortuária, e pentearam o cabelo, jogando a franja loira para a esquerda. Terminado o serviço, o rapaz se preparava para fechar o caixão, quando, de repente, o defunto abriu os olhos e deu um grito: 

-Não, seu burro. É pra direita, e não pra esquerda!

Dito isso, fechou os olhos, e morreu de novo.

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