Santana do Paraíso era uma dessas cidades do interior, onde o carnaval ainda guardava tradições. Uma delas era a mulinha – uma cabeça de boi montada em um corpo de madeira, coberto com um pano, onde o miolo comandava a brincadeira. A mais famosa era a do Seu Jorge. Com mais de trinta carnavais de história, naquele ano ela não ia sair, pois ele tinha falecido.
Quando começou a folia, quem surgiu no meio da praça? A mulinha do Seu Jorge. Durante os quatro dias de festa, ela deu pinote, correu atrás de toda a gente. Na missa de Cinzas, o assunto não era outro. Afinal, se não foi o Seu Jorge, quem teria sido o miolo então?
O que todo mundo acreditava era que Adolfo, seu único filho, que morava na capital, teria vindo para a cidade. Assim que o moço entrou na Igreja, Dona Terezinha, a beata mais fofoqueira da cidade, foi logo se adiantando em dizer:
-Que bonita sua homenagem Adolfo. Veio para Santana no carnaval, só para manter a tradição de seu pai.
Sem entender nada, o rapaz respondeu:
-Olha Dona Terezinha, não sei de qual tradição a senhora está falando, mas vim sim resolver algumas coisas do meu pai, na verdade acabei de chegar aqui.
Boquiaberta, a fofoqueira logo espalhou na missa que a mulinha estava possuída pela alma do seu antigo dono.
Depois disso, dizia o povo, que em toda quarta-feira de cinzas era possível ver ela no alto do pasto, correndo e dando pinote.