Ouvia o Fernando Gabeira dia desses, quando ele falava sobre Liberdade de Expressão, e regulação das mídias. Me preocupou o que vi, não pelas colocações do articulista, mas sim pela reação de tantos internautas sobre o assunto. Para clarear esse debate, quero voltar um pouco no tempo.
A minha geração (a que já dobrou o Cabo da Boa Esperança) não conheceu essa tal “Liberdade”, nem tampouco as Redes Sociais. A informação circulava nas rodas de conversa, pelo telefone e através de jornais, revistas, rádio e TV. O que não significa dizer que não houvessem difamação, ofensa e até mesmo Fakes News.
Só que naquela época, isso se resolvia com uma retratação na primeira página do jornal, ou mesmo em cadeia nacional de rádio ou TV Até porque, o efeito desses agravos era tão efêmero, quanto a vida de uma notícia, que ficava velha assim que surgia nova manchete. Para além disso, os atos legais de reprovação e ressarcimento da honra, seguiam seu ritmo lento e arrastado na Justiça.
Hoje tudo mudou. A informação é instantânea, e se antes ela tinha um caráter passageiro, hoje pode se tornar perene, justamente porque aquilo que é publicado, talvez nunca desapareça transpondo fronteiras e nações, e a crise com o X é um exemplo claro disso.
Não obstante ser nosso maior patrimônio, a Liberdade em seu múltiplo espectro é um direito, para o qual corresponde um dever – regra áurea da vida em sociedade. Portanto, suas opiniões, ideologia e crenças não podem ser desconsideradas, desde que seus efeitos não firam o direito do outro de discordar, ou mesmo sua honra.
Ora, por isso a tal regulação de que falava Gabeira torna-se necessária. Como a sociedade tem demonstrado falta de responsabilidade sobre aquilo que publica, em alguns casos beirando a imaturidade, necessário se faz que exista um instrumento para garantir os direitos individuais de todos, coibindo injustiças graves.
E falando em maturidade, me parece que poucos têm se preocupado com o efeito que essa liberalidade tem causado nas novas gerações, em especial aquelas que nasceram dentro do mundo digital.
Cada vez mais a intolerância com as diferenças, o discurso de ódio, o racismo, o preconceito com gênero e crença têm se tornado comum entre os jovens. Talvez porque alguém tenha lhes dito que são livres para fazer, ou dizer aquilo que bem entenderem.
Por isso, sempre uso uma metáfora para explicar aos meus alunos a relação entre Liberdade e Respeito: a Liberdade é como se fosse uma estrada de mão dupla e sinuosa, onde os veículos trafegam cada qual em sua pista. Se houver respeito por parte dos condutores, um veículo cruza o outro sem maiores problemas, mas caso um deles resolva desrespeitar a sinalização, e invadir a contramão de direção, o acidente é certeiro.
Penso que essa deveria ser a reflexão sobre a tal Liberdade de Expressão. Se você não consegue manter-se na sua faixa, sem avançar sobre a pista do outro, simplesmente CALE-SE.