Zé Tunin era sujeito simples, nascido no interior desse brazilzão, criado no cabo da enxada, e na quentura do sol. O que lhe faltava de instrução, sobrava em sabedoria e esperteza, própria daqueles que aprenderam a viver do jeito mais rude.
Lá pelas bandas onde morava, de quatro em quatro anos, passava uma tal “Caravana da Democracia”. Funcionava assim: na noite de véspera das eleições, os candidatos visitavam os arraiais e fazendas, distribuindo agrados para os eleitores.
Zé, que de bobo não tinha nada, só pegava as de $cinquenta$. Como na casa dele ainda não tinha televisor (nem internet), a cada caravanada era um bolo de notas que enchia o seu bolso (proporcional ao número de votantes da casa).
No dia da votação, toda a família cumpria com seu dever cívico. Em quem votavam? Ninguém sabe, afinal, o voto é secreto.
Findo o compromisso, a hora era de comemorar em um churrasco para os parentes e vizinhos, tudo pago graças aos agrados dos candidatos da noite anterior. Viva a “Caravana da Democracia”!
E assim acontecia no tempo dos currais. O gado, ou melhor, o povo humilde do interior era “convidado” a votar de acordo com a vontade (e interesses) dos patrões, coronéis e barões. Que bom que os tempos são outros, e essa prática arbitrária e anti-democrática não ocorre mais. Será mesmo?
Nos grandes centros ainda se troca voto por vantagens pessoais, sacos de cimento e até dentaduras. Mas quando você vai caminhando para o interior, descobre que por lá ainda existe quem sabe tirar vantagem da (falsa) bondade desses maus políticos.
No entanto, se o gado desses currais eleitorais era mestiçado, existe hoje um de raça pura, e que enche outro tipo de cercado, o ideológico. Por isso, a “Caravana” mudou – se antes ela passava de porta em porta distribuindo mimos, hoje invade casas e redes sociais de letrados da classe média – dita conservadora e defensora da familia, da pátria e da fé – distribuindo promessas.
Só que, ao contrário do Zé, estes aceitam o cabresto, e repetem a cantilena de falsos profetas, maniqueístas e perturbados que tentam – a todo custo – manter sua boiada dentro do curral.
Esperto mesmo era Zé Tunin, que sem diploma e cabedal soube dar a volta no Sistema, agindo de acordo com sua consciência, e ainda fazendo bom uso dos agrados recebidos da politicada desonesta.