“Existem escolas que são gaiolas, e escolas que são asas”. Penso que essa frase do mestre Rubem Alves nunca fez tanto sentido quanto no momento atual, onde os olhos do mundo se voltam para a relação (conflituosa?) Educação X Tecnologia. Pois vamos aos fatos.
Tudo começou na Suécia que ao identificar um déficit de aprendizagem com a leitura dos seus estudantes, entendeu que o celular em sala de aula seria o causador dessa anomalia, proibindo assim seu uso. Outros países já tinham tomado a mesma atitude. Junte-se a isso a publicação pela UNESCO do Relatório “Tecnologia na Educação: uma ferramenta a serviço de quem?”, que chama a atenção para os problemas que o seu uso pode ocasionar, sem a necessária reflexão crítica.
Vale lembrar que, há pouco mais de dois anos, essas mesmas tecnologias eram a “panacéia” da Educação durante os tempos de Ensino Remoto, e agora elas parecem ter assumido o papel de algozes da aprendizagem. O que pode ter mudado em tão pouco tempo?
Na verdade, absolutamente nada. Elas continuam sendo o que nasceram para ser dentro de uma sala-de-aula – meio, mecanismo para ajudar o aluno na construção do conhecimento. E mesmo passado o isolamento pouco (ou quase nada) se aprendeu sobre seu uso; por isso o celular, o tablet ou qualquer outro ferramental tecnológico deixaram de ser meios, para tornaram-se finalidade dentro do contexto educacional – é como se o conteúdo ministrado fosse pensado para uma determinada ferramenta, e não a ferramenta escolhida para ajudar a desenvolver um conteúdo.
Em razão disso, hoje já se vê construído um movimento do ‘antes era melhor”, que defende a volta ao modelo tradicional de ensino, com livros didáticos, onde as crianças aprendiam a ler e fazer as contas, logicamente, sem a presença do abominável smartphone. Na contramão disso, o estado do Paraná investiu massivamente nas tecnologias educacionais, experiência agora que se pretende repetir no estado de São Paulo, que já promete aulas através de slides. Mas então, qual a visão de ensino seria a mais correta? Para responder a essa pergunta temos que esclarecer alguns pontos importantes:
O primeiro trata das soluções encontradas (ou problemas apresentados) no sistema de Ensino dos outros países que não são os mesmos, nem tampouco se aplicam à nossa realidade de país continental, com uma diversidade cultural, geográfica e social totalmente singular. Esse foi um dos grandes erros cometidos durante a Pandemia, ao servir-se de modelos e estatísticas importados, que não davam conta dos déficitis de aprendizagem do jovem estudante brasileiro, em sua maioria anteriores ao Ensino Remoto. Sendo assim, não vamos tomar a Suécia como base de comparação para justificar as nossas perdas educacionais.
O segundo diz respeito às Tecnologias. Concordo com a conclusão da UNESCO quando fala de reflexão crítica sobre o uso dessas ferramentas, pois, uma das consequências da COVID para a Educação foi o investimento sem planejamento em Tablets e Notebooks para professores e alunos, cursos em profusão sobre novas Metodologias de Ensino e até canais de TV e Centros de Mídias foram criados – tudo isso para atestar que aquela Rede de Ensino estava pronta para responder aos anseios dos pais sobre a formação de seus filhos, chancelada pela marca “Educação 3.0” – revolucionária – mas sem sucesso, como demonstrado pelos indicadores pós-Pandemia.
O terceiro e último, trata da aprendizagem por si mesma. Falando novamente do caso sueco, imaginar ou pretender que o celular seria suficiente para influenciar negativamente na questão das habilidades leitoras é muito para um teimoso professor (como o que aqui escreve), sabedor que o é que esse é um hábito construído fora da sala-de-aula, próprio de famílias onde pais leitores influenciam positivamente os filhos através da repetição dos gostos. De fato, por melhor que sejam minhas aulas, conseguirei – talvez – vencer o ranço e a barreira da primeira página com meus alunos, mas torná-los leitores? Isso demanda tempo, e muito trabalho. E não podemos esquecer que o Brasil ainda é, na sua essência, um país de não-leitores.
Uma escola como a de nossos pais? Do que depender de mim, certamente que não. Nem tampouco vou fazer coro com os saudosistas que cantavam tabuada nas aulas de matemática, ou repetiam incansavelmente os verbos e as classes morfológicas nas arguições de Português. Não! Os tempos são outros, nossas crianças já nascem com habilidades diversas das que tínhamos, e a sociedade oferece aos nossos jovens a tentação de servir-se de uma Inteligência Artificial para fazer uma Redação, ou um trabalho escolar.
Por isso é necessário que a aprendizagem seja sempre significativa para o aluno, pois somente assim ele estará preparado para viver nesse “Admirável Mundo Novo”, mas que ainda causa tanto estranhamento e furor. Quanto às tecnologias? Sempre serei a elas favorável e defensor – sejam midiáticas, de realidade aumentada, ou dialógicas – desde que nunca percam seu papel dentro do processo: servir de ferramenta para a construção do conhecimento, e nunca o fim em si mesmas. Ah, já ia me esquecendo de uma última tecnologia, e mais acessível a todos, mas que percebo em desuso nas classes, infelizmente – a vontade, para transformar os limões das adversidades educacionais, em uma saborosa limonada no processo de ensino.