Diz uma antiga história que: ´” Como recompensa por um serviço prestado, os homens pediram a Júpiter a eterna juventude, o que ele concedeu. Pegou na juventude, pô-la em cima de um Burro e mandou que a levasse aos homens. Indo o Burro no seu caminho, chega a um ribeiro com sede, onde estava uma Cobra que disse que não o deixaria beber daquela água se não lhe desse o que levava às costas. O Burro, que não sabia o valor do que transportava, deu-lhe a juventude a troco da água. E assim os homens continuaram a envelhecer, e as Cobras renovando-se a cada ano.”
Somente recorrendo à ficção moralizante das fábulas, para tentar explicar um pouco do que se passa na Política desse planeta chamado Brasília. Em tempo, ainda estamos reclusos, sorvendo o período de Banzo, mas como esse é um tema pujante, retornamos em edição extraordinária para falar sobre as vigarices (que não tem nada a ver com o vigário) intentadas no embate entre duas Excelências nacionais.
Voltando à historieta, ao Burro são associadas as características da simplicidade (e porque não um alazão branco?) e da confiabilidade, já que a ele é conferida uma missão nobre que mudará a vida de toda a humanidade. No que diz respeito à Cobra, ela é identificada como oportunista e traiçoeira ao vincular sua permissão para o uso da água à troca da carga que o muar trazia no lombo. Qualquer semelhança com os revezes da política brasileira, não é mera coincidência.
Diante desse cenário, temos de um lado uma figura que representa a vontade popular, e à qual foi outorgada a tarefa de retomar o desenvolvimento do país, em contraponto com uma outra que foi escolhida para representar os interesses de um extrato da política – (ex) nanicos que cresceram, transformaram-se em baixo clero, e hoje querem reinar em seus feudos (as “Bancadas”) sob a égide de um Soberano.
Brasília, que já foi reconhecida como a “terra do toma lá dá cá”, por conta dos seus acordos nem sempre Republicanos, vive hoje às turras com as agruras de um Presidencialismo de coalisão que exige do governo a capacidade de articulação e negociação com quem é a seu favor, mas também com os contrários. Até aí tudo dentro do esperado, ou como costumava repetir um ex-presidente “dentro das quatro linhas da Constituição”.
O que pegou todos de surpresa (inclusive esse que vos escreve) foi a postura de certo ofídio que, resolvendo “cobrar” pela prestação dos seus serviços, colocou o governo (tal como o muar) refém do apetite do grupo que representa em troca da água do ribeiro – governabilidade e interesses nacionais – em um flagrante delito de chantagem, de extorsão política que atinge não apenas o pobre equino, mas todo o país.
Mas afinal, a culpa é do Burro? Certamente que não, nem tampouco vale dizer que é reflexo “somente” das bestialidades do último quadriênio presidencial. O nexo causal dessa distopia vem de bem antes, quando no Brasil ainda existiam os grandes Partidos, que foram perdendo espaço no mesmo ritmo em que seus baluartes foram morrendo, ou saindo de cena. Por conta disso, o que deveria ser exceção – o mau político – acabou transformando-se em regra, quando não condição sine qua non para investidura no cargo.
E qual é a Moral da releitura dessa fábula à brasileira? A ocasião (sempre) faz o ladrão!