As singularidades da menina Geralda

Retornando a Prosperidade, depois de um tempo afastado, encontrei com o Velho Lazin na venda que, entre um café e outro, veio me atualizar sobre as últimas acontecências da cidade. Foi então que me falou sobre a história da menina que era homem, escândalo que colocou toda Prosperidade em polvorosa. O causo se deu mais ou menos assim.

Geralda, filha caçula de outros nove filhos homens do casal de lavradores Sebastiana e José, nasceu e cresceu em um sítio humilde, na zona rural de Prosperidade. Desde muito cedo foi cercada de cuidados por toda a família – tanto os pais, quanto os irmãos, nunca deixavam a pequena sozinha, que por isso mesmo não teve contato, ou fez amizade com outras crianças de sua idade. Dessa forma, o seu ingresso na escolinha foi atrasado, mas, sem outra opção, ela começou a estudar aos cinco anos.

Muito tímida e introvertida, a pequena quase nem era notada na salinha cheia. No início e fim das aulas – bem como na hora do recreio – a menina sempre estava acompanhada por, pelo menos, um de seus irmãos, que tinham com a caçula um cuidado maior do que poderia se esperar, em uma relação fraternal.

E assim os anos foram se passando. Sempre quieta, e sem amigos, Geralda foi vendo a sua vida mudar e, por conta dessas mudanças, suas “singularidades” começaram a ficar mais evidentes, tanto é que a mãe sempre lembrava à menina “que nunca deveria se mostrar sem suas roupas para ninguém, nem para as professoras”. Os zelosos pais conseguiram até um atestado médico, que proibia a pequena de acompanhar as aulas de Educação Física na escola.

Até que um dia, já com seus doze anos, o que a família lutou a vida inteira para esconder, foi descoberto: quando usava o sanitário da escola, achando que estava sozinha no banheiro, foi surpreendida por um grupo de meninas que, ao perceberem uma “coisa” entre suas pernas, saíram gritando pelo corredor afora que a Geralda era um menino.

A escola virou um pandemônio, os irmãos começaram a brigar nos corredores para defender a irmã, e a confusão só terminou com a chegada dos pais que pegaram Geralda e os irmãos, e nunca mais foram vistos em Prosperidade. Abandonaram o sítio, e vizinhos próximos disseram que eles se mudaram para o Norte do país, lá pras bandas do Pará, onde Sebastiana tinha parentes.

Lazin contou essa história com requintes de crueldade, dizendo que a cidade inteira havia sido enganada pelos pais da menina, que criaram um menino, como se fosse menina. Pausa para mais um café, expliquei (de maneira didática) para o Velho que aquilo era incomum, mas possível de acontecer e que, na verdade, a “coisa” que as adolescentes viram entre as pernas de Geralda, era apenas uma parte da genitália dela que havia se desenvolvido mais do que o normal. A Medicina chama isso de Falso Hermafroditismo, que é quando o clitóris da menina se desenvolve de maneira anormal, assemelhando-se a uma genitália masculina.

Findo o café, me despedi do Velho, e tomei meu rumo.

Professor Sérgio Soares

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