Vivendo como galos e galinhas: uma metáfora da vida em sociedade

Nunca havia criado penosas, reconheço! Minha experiência se restringia aos freezeres dos supermercados, ou a visita às saudosas “frangolândias”. Mesmo tendo memórias infantis da vida na roça, quando visitava a casa dos avós, minha formação era totalmente citadina, daquele tipo que tinha medo de levar “bicada” da galinha, galo então? Era um perigo!

Por isso, quando tive que fazer o caminho da roça – saindo da cidade e indo para o interior – me senti várias vezes um extraterrestre, por total falta de afinidade com os sons e cheiros do local. Hoje, já aclimatado e me sentindo um “roceiro” da gema (de pé cascudo, que anda descalço no chão de terra batida), e tendo a oportunidade de conviver com os galináceos, posso dizer que entendo como funciona essa sociedade de penosas e, graças a isso, posso afirmar que existe mais de galinheiro em nossas vidas, do que poderia julgar nossa vã filosofia.

Da forma de Governo: Republicana, com a existência de apenas um governante – o Galo, mandatário do poleiro – escolhido por aclamação, graças aos seus dotes físicos, que não cede e nem delega seus poderes para nenhum outro membro do grupo. Para manter sua hegemonia, não transige de chegar às vias de fato.

Das relações de trabalho: papéis muito bem definidos, às galinhas cabem a função de produzirem os ovos, e aos galos a de galar e garantir às futuras mamães um ninho pronto e fofo (função que eu nunca tinha imaginado que pertenceria ao galo), as esperando apenas para o choco . Daí que acho vem a expressão popular “a galinha canta para botar o ovo”, mas o que não sabia é que ela canta para avisar ao galo que quer botar, por isso ele que  se apresse em arrumar o ninho. Quando estes existem outros machos (no caso do galinheiro lá de casa um galote e um macho d’Angola), lhes cabe um papel secundário na urbe penosa não podendo nem mesmo cantar, para não ofender o Senhor do Poleiro.

Das relações sociais: o dia-a-dia é sempre muito agitado, com constantes desentendimentos entre seus pares, seja pela disputa de um pedaço de minhoca, seja pelo melhor lugar no ninho (mesmo que você deixe cinco à disposição, todas vão querer colocar no mesmo). Desde que nascidos no local, os galos e galinhas aceitam qualquer um, até de raças diferentes, como os D’Angola, no meu caso como exemplo. Agora, coloque um estrangeiro dentro e o caos está formado!

Da relação com a maternidade: essa é uma parte muito interessante da vida das galináceas, pois existem mães de sangue que mal rompidas as cascas, abandonam seus pintos para começar outro choco, e até mães de aluguel que recebem os ovos de outras e os tratam como se seus os fossem, levando a responsabilidade da maternidade até o momento em que os pequenos já são autossuficientes. Mas o que de fato mais me chamou a atenção foi a guarda compartilhada de ovos e pintos – duas galinhas, dividindo a responsabilidade de choco e de cuido da mesma ninhada,  e isso acontecendo de maneira totalmente harmoniosa.

Das relações de/pelo poder: como dito, o Galo centraliza em si o poder de mando e escolha no poleiro (até a hora e a parceira para a cópula é ele quem define), além disso, não permite que nenhum outro macho o faça representar na hora do canto. Agora, basta se ausentar para cumprimento de agenda externa, ou licenciar-se para tratamento de saúde que o bicho pega (lá em casa, recentemente, aconteceu isso – o Galote que se fingia de franga para não apanhar do Galo, tomou coragem – assumiu o poleiro, passou a régua nas frangas e começou a soltar a voz. Só que o macho d’Angola – apesar de ser de outra raça – resolveu que também queria esse posto, e aí a casa caiu – voou pena para todos os lados!). Mas fiquei sabendo de um caso que me assustou – num galinheiro vizinho um bando de galos Índios assassinou um galo caipira. Por puro prazer e maldade, acabaram com o penoso, foi terrível!

Essa é a vida no galinheiro lá de casa, mas se quiser posso dizer que também é a vida da cidade onde moro, ou mesmo do país onde vivo – dos menores grupamentos sociais – no caso as famílias – até os maiores como a nação, me arrisco a afirmar que vejo repetidos muitos dos traços de comportamento e personalidade que encontrei nos galos e galinhas do meu terreiro. Quem não tem, ou conhece casos de famílias onde mães abandonam os filhos ainda bebês, ou contrariamente, daquelas que mesmo não sendo as genitoras cuidam e amam os filhos de outra, como se seus os fossem.

Em relação ao preconceito com os estrangeiros, isso também é facilmente perceptível, basta abrir os jornais para ver as manchetes – imigrantes ilegais africanos abandonados – à deriva – dentro de navios e botes para não alcançarem a entrada dos países europeus. Mas até mesmo na escola (um outro tipo de galinheiro) essa situação se repete – basta chegar um novo aluno transferido de outro bairro ou zona rural, por exemplo, que o bullying mostra sua cara.

Agora quando se tratam das disputas de/pelo poder, e aí não falo só do poder político, mas de toda forma de mando – relações maritais, relações de comando e subordinação e até, claro, da vida pública ficam mais nítidas essas semelhanças. Nessa última, o momento que se vive no país hoje fala por si mesmo – um governo republicano, democraticamente eleito, que desde (d’antes) a posse vem sofrendo o rescaldo de uma derrota nas urnas, que o antigo mandatário (Galo antecessor) e seu grupo não aceitam. Para além disso, os frangotes da Câmara dos Deputados teimam em cantar mais alto para enfraquecer o Presidente (galo republicanamente eleito) ou negociar uma melhor posição no poleiro.

E aí vem a questão fulcral, basilar dessa história – quem nasceu primeiro? O ovo ou a galinha? Ou fazendo uma releitura – quem é o verdadeiro animal? A galinha ou o homem?  Isso porque, se analiso os comportamentos dentro do galinheiro, vejo traços de sentimentos “humanos” como o amor maternal, mas também de inveja, ira, orgulho e luxúria, extratos do que há de melhor e de pior na humanidade. Ao mesmo tempo, quando olho a vida em sociedade, dita humana, vejo os mesmos traços instintivos “animalizados”, potencializados pela capacidade racional do homem, que podem provocar um efeito muito mais devastador. Então, deixo aqui esse retrato das tramas sociais e políticas do galinheiro lá de casa, como forma de reflexão sobre as disputas e excessos cometidos, diuturnamente, na vida em sociedade da “evoluída” espécie humana.

Deixe um comentário