O que nos torna humanos? Para além de questões filosóficas, uma resposta possível a essa dúvida primordial seria o complexo (e sofisticado) emaranhado genético que nos difere dos chimpanzés – nossos primos mais próximos. Contudo, em artigo recente publicado na Revista Science, pesquisadores descobriram que não foi a presença, mas sim a ausência de fragmentos genéticos dos primatas, que foram sendo perdidos durante a transição evolutiva das espécies, que nos trouxeram à condição atual de Homo sapiens.
Segundo o poeta Augusto Branco, “Nesta vida, não somos mocinhos nem vilões: apenas humanos”, o que pode ser entendido, no contexto dessas novas pesquisas genômicas, como um defeito, e não uma virtude, pois veja que surpreendente: os chimpanzés – dos quais fazemos tanta questão de negar o parentesco – não ofendem, nem discriminam os seus. Quanto a nós? #Somos todos Vinni Jr.!
O mais curioso desse triste episódio é que o preconceito racial, na maioria das vezes, é um tipo de violência sofrida por negros periféricos, sem instrução e em sua grande maioria de baixa renda. No caso de Vinni Jr, ocorre justamente o oposto disso – apesar de sua origem humilde, tornou-se um jogador de sucesso, com muito dinheiro e que ainda desenvolve um projeto de grande responsabilidade social – o Instituto Vinni Jr – digno de destaque pois que tem como objetivo mudar a vida de crianças e jovens (pobres como ele o foi) através da Educação e do Esporte.
Enfim, esse deve ser o tal do Racismo Estrutural de que tanto se fala hoje no Brasil, e que não é menor do que o Feminicídio Estrutural, do que o Abuso Sexual Estrutural ou do que o Extermínio Estrutural – todos esses, certamente, consequências da falta daquele material genético que tínhamos – quando éramos Primatas – e o perdemos durante nossa “evolução” enquanto espécie, ou seria mais correto tratar como uma (in)volução?
De maneira soturnamente sombria, Clarice Lispector já alertava em sua prosa sobre aquilo com que hoje convivemos, e costumamos chamar de contemporaneidade – “E a escuridão se torna tão maior. Estou caindo numa tristeza sem dor. Não é mau. Faz parte. Amanhã provavelmente terei alguma alegria, também sem grandes êxtases, só alegria, e isto também não é mau. É, mas não estou gostando muito deste pacto com a mediocridade de viver.”
Palavras duras sim, mas necessárias, pois que representam um modo de viver proposto pela sociedade atual, que é baseado na mais valia, no individualismo, na dominação, na falta de empatia e de respeito por pessoas, e pelo meio ambiente que nos cerca – modelo esse definitivamente baseado no que há de mais vil da exiguidade humana.
Não por menos, o filósofo francês Edgar Morin afirmou em uma de suas entrevistas: “A menos que as pessoas tomem consciência da comunidade de destino dos humanos sobre a Terra, as pessoas se fecharão em suas identidades religiosas, étnicas etc. Vivemos um período obscuro da história, a única consolação é que esses períodos obscuros não são eternos.”
Enquanto esse tempo de sombras não chega ao fim, vou-me embora dessa terra ensandecida, com destino à Pasárgada. Lá vou tomar de volta meu genoma perdido, para voltar a ser chimpanzé, Australopithecus, ou aquilo que me der na telha. Certo é que ficar nesse lugar de humanos malucos, abusadores, assassinos e discriminadores quero mais não. Fui!