“Como um náufrago à deriva no mar, em um bote fazendo água” (A história desafortunada de José)

José era um sujeito comum, sem mais nem menos, apesar de alguns lhe oferecerem a alcunha de “perfeitinho”, “inteligentinho” e até de “anjinho”, mas na verdade era apenas mais uma sombra na multidão, um flâneur, ou se preferir um verdadeiro “passante” ao melhor estilo do sempre Verde, Cesário Verde.

Meu encontro com o sujeito se deu de maneira inusitada: fui apresentado a ele no entrecortar das vagas, no meio do oceano, à deriva, em um bote furado, fazendo água e, por mais óbvio que pudesse parecer, não pude me conter e perguntei como ele havia chegado naquela situação.

Respondendo prontamente, José me disse que para explicar o embróglio em que se metera, tinha que relatar o encontro profético com três personagens distintas – um político, um religioso e um cientista.

Como dito, a vida do tal José nunca fora melhor nem pior do que a de ninguém, como também não fora marcada por nenhum fato trágico, ou espetacular, nem pobre nem rico, apenas sobreviveu e tudo ia seguindo seu fluxo de vida mediana, de um sujeito classe média, até que um dia, como se fosse um avião fazendo piruetas, sua vida entrou em estol (quando uma aeronave em situação de estol não está voando, mas sim caindo). E agora José?

Primeiro encontro – O Político: ao relatar ao Legislador as desventuras que o levaram a estolar, colocando em queda livre suas expectativas, anseios e projetos de vida, ouviu uma explicação típica de um “Odorico Paraguaçu de Sucupira”, segundo o qual José tinha que entender a complexidade e o simbolismo da vida, que poderia ser comparada a uma roda gigante, onde hora estaria no topo, hora estaria no chão, mas que por se tratar de um movimento cíclico, em algum momento a vida ia melhorar, era só esperar.

Não convencido da explicação, José só respondeu ao representante do povo que, muito provavelmente, a roda gigante da vida dele havia emperrado no chão, sem perspectiva real de voltar a subir.

Segundo encontro – O Religioso: seguindo seu périplo em busca de respostas, nosso amigo encontra um “Homem de Deus”, na esperança de, recorrendo à divindade, encontrar uma explicação para suas desventuras em série, já que a primeira explicação, não tinha sido capaz de lhe convencer, nem tampouco consolar.

Começando sua pregação, o Religioso lembra ao náufrago que Deus, Jeová, Ser Supremo ou Inteligência Universal não impõe ao seu filho um fardo maior do que ele pode carregar, e que tudo, no final das contas, era nada mais nada menos do que uma “prova de Fé”.

Mais uma vez, o desesperançado homem não se sentiu convencido, isso porque, dentre as inúmeras alcunhas que havia recebido em sua vida, uma delas era a de ter sido um “Homem de Fé”, demonstrada em suas palestras inflamadas e recheadas de citações e exemplos bíblicos.

O que nosso amigo não sabia à época é que falar sobre Fé para os outros é fácil, é apenas uma questão de teorizar sobre um tema como outro qualquer, contudo, viver e sentir na pele o problema vai muito além da teorização, e é nessa hora que se percebe que a tal “Fé que move montanhas” é apenas uma figura de Retórica.

O terceiro encontro – O Cientista: como não havia encontrado resposta nem na Política, nem na Religião, o desafortunado decidiu buscar na Ciência o lenitivo que até então não lhe havia sido oferecido. Ao chegar a um laboratório de última geração, o genial pesquisador, após ouvir o comovente relato do sofredor, se pôs a escrever em uma lousa fórmulas e sequências matemáticas, e após um longo tempo apresentou a José sua tese que explicava a situação em questão – o problema do desfalecido náufrago é que, estatisticamente, um em cada mil humanos nascem fadados ao insucesso, e quanto a isso nada se podia fazer, pois era um caso típico de seleção natural da espécie, onde somente os melhores sobrevivem.

Mais deprimido do que no primeiro e no segundo encontros, José só conseguia se lembrar da infalível Lei de Murphy, que tinha como princípio a máxima “nada é tão ruim que não possa piorar”.

Cansado de tanto buscar respostas e não as encontrar, o desacoçoado vagante se lembra que os místicos costumavam fazer viagens de iluminação e auto-conhecimento (como o Caminho de Santiago de Compostela) em situações de desespero e falta de respostas, como aquela que estava vivendo.

Sendo assim, decidiu largar tudo, entrou em um barco e saiu navegando sem destino em busca de sua iluminação.

Entretanto, a “Jornada de Ulisses” do inexperiente navegador, terminou no primeiro recife de corais, que levou sua Nau a fundo, restando a ele apenas se agarrar a um bote e a um balde.

O bote, enquanto equipamento de segurança do barco que, avariado com o desastre, fazia água através de um furo no centro do casco. E o balde – que foi a salvação que passou boiando ao seu lado, e lhe garantiu a preservação da vida, pois com ele tirava a água que insistia em entrar pelo buraco na pequena embarcação.

Depois de ouvir tão contundente relato me despedi de José, lembrando de vê-lo se afastando no horizonte, enquanto jogava para fora, a água que teimava entrar no barco. Ele que andou tanto buscando um sentido para os seus infortúnios, não havia percebido que aquele barco à deriva, fazendo água no meio do mar, era a própria metáfora que explicava tudo: sua vida era tal como aquele bote: não afundava porque a água que entrava era colocada para fora com o balde, mas também não progredia, nem tampouco chegava em terra firme, visto que as avarias da embarcação não lhe permitiam escolher, nem tampouco definir o rumo que gostaria de seguir.

Pobre desafortunado José!

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