Banzo. Esse é o sentimento que me define. Fastio, desagrado, desconforto em relação ao estado das coisas, sensação de não pertencimento, de impotência. Saudades de tempos que não vivi, de um lugar onde desejo estar. Por isso estou pedindo as contas. Vou-me embora dessa terra de incertezas – quero embarcar no próximo trem azul em direção à Pasárgada, pois, somente lá encontrarei o destino para o qual fui inventado – minha “Ulissipona”.
Se aqui continuar, seguirei vivendo a desdita do “homem perfeito” – Mestre exemplar, porém impotente diante das armadilhas do Sistema; autor eloquente mas sem notoriedade, que talvez devesse fazer como Hilda Hilst – escrever um outro caderno, rosa como o de “Lori Lamby”, para conquistar likes, views e, assim, atingir o nirvana dos Trending Topics. Como cidadão da Polis, preocupado com o bem comum, não conquistei credibilidade, nem tampouco consegui mudar o mundo. Ao contrário, continuo agindo como se Dom Quixote o fosse, lancetando moinhos de vento. O porquê de tanta desilusão? Explico.
Sempre acreditei que o Magistério fosse muito mais do que uma escolha profissional. Utopia ou não, a experiência me mostrou que aqueles que de outra forma pensavam, sucumbiram diante das agruras da Rede. Talvez, por isso mesmo, na minha história de vida busquei a reflexão sobre a práxis pedagógica, e a função do educador na formação do cidadão. Não por menos me tornei gestor, e depois crítico dessa mesma Rede.
Fato é que, quando vejo hoje nos noticiários a discussão sobre o Ensino Médio ser tratada como bandeira político-classista, isso me causa profunda revolta. Menos pela questão curricular ou conteudista (parte mais simples de se resolver), mas sobretudo pela omissão, pela negligência com que a Educação (e o futuro) desses jovens vem sendo tratada no país.
Seriamente me pergunto se esses especialistas, doutos e sábios da Academia, alguma vez se dispuseram a lecionar em uma turma do médio público. Digo isso por que o discurso posto faz parecer que, antes da “Reforma”, vivia-se em um ambiente de excelência, o que é uma grande falácia. A formação secundarista no Brasil (falando aqui especificamente da pública) já agonizava uma “morte anunciada” há tempos e governantes, Academia e educadores nada fizeram para reverter isso.
Enquanto isso, na Cidade-Estado chamada Brasília, quando um governo de esquerda sustenta a necessidade dessa mudança, ainda que isso represente “rever” a própria Reforma (até porque acredito que os equívocos se deram na execução, e não na concepção da mesma), seus próprios pares fazem coro em uma crítica uníssona, em uma clara demonstração de comprometimento com a “classe sindical”, quando ao invés disso deveriam ser compromissados com a “classe escolar “, objetivo sine qua non do processo de ensino-aprendizagem.
Ainda falando sobre Educação, ouvindo um noticiário o comentarista ao falar sobre as ameaças e ataques recentes, afirmou que o problema (e sua solução) não está dentro da escola, já que a origem da violência está na sociedade, e o ambiente escolar é apenas o reflexo dessa realidade. Raciocínio com o qual sou forçado a concordar, e que vem de encontro ao desencanto do Mestre que, sentindo-se vencido diante da força e agressividade com que o status quo se impõe, só enxerga um caminho – abandonar a missão.
O mundo (como hoje se apresenta) não é mais lugar bom para se viver, basta colocar a cabeça para fora da caixinha do individualismo para perceber isso. Se Apocalíptico eu fosse diria que é o “Sinal do Fim dos Tempos”, quando justos e pecadores deverão acertar contas com o Divino. Note que até mesmo lideranças religiosas, tantas vezes enaltecidas – como Dalai Lama para os budistas, e Divaldo Franco para os espíritas – caíram em desgraça diante das artimanhas da vida mundana.
Tentando, pois, encontrar algum sentido nisso tudo, talvez devesse fazer como Doutor Simão Bacamarte, na distópica Itaguaí, e aceitar que o errado – o gauche da história – sou eu e, portanto, condenar-me ao autoexílio em uma cela da Casa Verde, até o fim de meus dias. Ou, quem sabe, de forma menos heroica, fugir daquilo que me incomoda. Pergunto, enfim, ao moço do guichê na estação: – Que horas parte o próximo trem com destino a Pasárgada?