Sempre ouvi falar de uma tal “crise dos cinquenta anos”, mas achava tratar-se de histeria de pessoas mal resolvidas e sem objetivos na vida. Qual não foi minha surpresa quando esse que vos escreve, ao aproximar-se das fronteiras do Cabo da Boa Esperança, na eminência de cruzá-lo, se viu tomado por inquietações que não supunha pudessem advir da passagem de mais um cumpleaños.
Logo “ele” – tão bem resolvido, cheio de propósitos e projetos, escrevinhador de textículos, pesquisador e crítico das políticas públicas educacionais, professor comprometido com seus alumnus (e não apenas com a cátedra), homem de (pouca) Fé e um realista esperançoso. Como explicar tais desassossegos?
O tempo – parceiro frio e cruel de caminhada – é o antagonista da tragédia de nossas vidas. Mário Quintana, o poeta das coisas simples, nos mostra isso nesses versos: “A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa./ Quando se vê, já são 6 horas: há tempo…/ Quando se vê, já é 6ª-feira… / Quando se vê, passaram 60 anos!”. Então, tudo se resume a brevidade da história de vida, como se ela um Conto fosse ao melhor estilo Dublinenses de James Joyce. Uma narrativa curta, embricada pelo realismo das escolhas, conflitos e conquistas que culminam em uma epifania catársica, que leva o protagonista a confrontar-se com si mesmo, caminhando para um porvir nem sempre poético.
Certamente, por isso, esse cinquentenário é tão simbólico, pois representa que sigo em direção ao terço final de minha jornada (dentro de uma perspectiva otimista) que, por isso mesmo, deve ser entendido como um ponto de convergência, o clímax onde deverei revisitar minhas memórias (Salve Pedro Nava), e raspar as camadas de tinta que foram depositadas em minhas paredes (como bem me lembra Rubem Alves), sendo obrigado, portanto, a encarar a resenha crítica dessa narrativa.
Pode ser, então, que você que me lê esteja se perguntando – Mas afinal, o que você encontrou em sua epifania que foi tão ruim assim?
Na verdade, nada houve que tenha sido nem tão ruim nem tão bom, tão certo ou errado a princípio. Tudo o que fiz foi baseado em escolhas,, por isso não há arrependimentos. Contudo, o desconforto (e essa é a palavra que melhor define o sentimento) vem do fato da vida não ser uma equação matemática, onde 2 + 2 são 4. Essa inexatidão faz com que, ao olhar para trás, ainda que tenha sido o narrador e protagonista dessa história, perceba que não tenho (nem nunca tive) controle algum sobre o desfecho que ela tomará.
É como se, abruptamente, tivesse acordado “com um gosto amargo na boca – daqueles que só sente quem abusa na véspera da quantidade (e qualidade) do Whisky, de procedência duvidosa. E o pior é que essa sensação vem se repetindo a cada manhã, a cada semana, já há alguns meses”.
O tempo passou muito rápido como bem lembrou Quintana, apesar de algumas vezes ter parecido o contrário. Quando abandonamos o idílio da juventude, e ingressamos na aspereza da vida adulta é como se os ponteiros do relógio entrassem em um modo acelerado, por conta da carreira que temos que construir, da vida pessoal que temos que organizar, do sucesso profissional que necessitamos alcançar e “Quando se vê, já é 6ª-feira”. Então, a inexorabilidade do calendário bate à porta, nos lembrando que a areia da ampulheta está por um fio, sinalizando o término da história.
Por fim, não poderia encerrar esse solilóquio queixoso de forma outra que fosse dividindo com Drummond minhas agruras por ter escolhido ser um gauche nessa vida – “Sozinho no escuro / qual bicho do mato, / sem teogonia, / sem parede nua para se encostar, / sem cavalo preto que fuja a galope, / você marcha, José! / José, para onde?”