Religião – em Latim religare tem como uma de suas definições “tornar a ligar, unir de novo o humano ao divino.” E é sobre essa conexão (ou a falta dela) que tratarei nesse artigo, tendo como provocação o frenesi causado pela divulgação dos comentários de um baluarte do Espiritismo, durante uma de suas palestras em Salvador, na Bahia. Antes de mais nada, que duas coisas fiquem bem claras – não se trata aqui de julgar a pessoa por suas ideologias ou crenças, nem tampouco desqualificar a obra, por conta da expressão das opiniões do obreiro, pois, a primeira é perene, e naquela Mansão muitos já encontraram consolo e alimento, enquanto o segundo é transitório e errático.
Segundo, então, o que foi publicado na mídia esse famoso orador espírita teria – por mais de uma vez durante sua fala – deixado transparecer simpatia por ideais “bolsonaristas”. Para além disso, recebeu também das mãos do próprio, ainda em seu governo, uma grande honraria nacional. O somatório disso foi suficiente para expor a cizânia que, tal como na política, invadiu o movimento espírita agora dividido entre esquerdistas e direitistas – lulopetistas e bolsonaristas. E isso é uma exclusividade do atual momento político brasileiro? Certamente que não.
O tempo era outro, o século também. Há mais de 40 anos nascera uma criança em berço esplêndido da Fé espírita, educada dentro de seus preceitos, com uma genealogia que lhe garantiria um futuro auspicioso na religião professada. A criança angelical logo tomou-se um jovem prodígio que, apesar da pouca idade, já assumia funções de evangelização próprias de um adulto, tomado sempre, por esse motivo, como exemplar junto aos seus.
Contudo, ainda que instintivamente, por alguma razão aquela veste não lhe servia. Sempre tomado por um desconforto, preteriu as tribunas em favor do trabalho com os jovens, e do consolo dos necessitados através da musicalização. E assim o fez até que a vida lhe cobrou o tempo que à religião dedicava, afastando-se, logo em seguida, do movimento.
O que somente tempos mais tarde fora entender, era que o tal “desconforto” vinha daquilo que enxergava dentro das Casas e do Movimento Espírita, mas a falta de maturidade não lhe permitia compreender – idolatria, egolatria, preconceito e discriminação por classe social, nível cultural e, até mesmo, orientação sexual – isso há mais de 30 anos atrás. Trazendo esse cenário para o contexto atual, o que é o tal “bolsonarismo” senão a síntese de tudo isso?
Conforme narra o evangelista Mateus “a boca fala daquilo do que o coração está cheio”, nesse caso cheio de individualismo e orgulho, mas esvaziado de Amor. Como consequência, as pessoas estão cada vez menos empáticas e respeitosas umas com as outras, cada qual com sua própria Verdade que será sempre melhor que a do outro (Certo X Errado – Esquerda X Direita), e isso vale tanto para os que professam uma Fé, quanto para aqueles que se dizem descrentes.“
E por falar em crença, Karl Marx já afirmava que “a religião é o ópio do povo” no que sou obrigado a discordar com veemência. O problema não está no credo, mas sim no crente, pois, via de regra, é ele quem desvirtua, corrompe e desqualifica a Fé, a qual não pode ser racionalizada (visto que é fruto de uma vivência singular boa ou ruim) e é, em essência, o amálgama para a conexão entre o humano e o divino.
Portanto, para que as religiões sejam de fato esse elo de ligação do humano com Deus, Jeová, Javé, Buda ou Krishna necessário se faz que não exista mais a figura do fiel ou seguidor. Mas como isso não é factível de acontecer, que saibamos reconhecer o caráter falível dos religiosos, em oposição à necessidade indelével de buscar uma conexão com a deidade que é, por definição, o papel de toda Religião.