Cunhatã e Curumim

“Imagine você desempregado, pobre, passando fome, doente. Dentro da sua casa, tem um quadro do Picasso que vale US$ 1 bilhão. O que você faria? Venderia. Aí, pega o dinheiro e melhora sua qualidade de vida. Igual aos indígenas americanos”. Essa afirmação estapafúrdia e infeliz foi proferida pelo Governador do Estado de Roraima, território onde está localizada a reserva Yanomami, cenário de uma das mais graves crises humanitárias da história recente do Brasil.

Em resposta a pessoas que pensam como o Senhor Governador, apresentamos aqui o pensamento do escritor e professor Daniel Mundurucu, pertencente à etnia indígena Mundurucu “Olhar os povos indígenas brasileiros a partir de uma visão rasa de produção, de consumo, de riqueza e pobreza é, no mínimo, esvaziar os sentidos que buscam para si.” E assim começa aqui a história de Cunhatã e Curumim.

Desconhecer que os povos originários desse país foram, até bem recentemente, esquecidos, colocados à margem e explorados por todo tipo de gente seria corroborar o discurso fascistóide do desorientado governante. O que não pode traduzir-se na minimização da tragédia, do verdadeiro genocídio, ocorrida com os indígenas Yanomamis.

Homens, mulheres e crianças abandonados à própria sorte, degredados dentro de sua própria terra e sem condições de cuidar da subsistência da tribo, por conta da contaminação dos rios. Aliciados pelo tráfico e pelo garimpo ilegal, oferecendo suas jovens em troca de ouro, e doentes por conta da presença do homem branco, que além de lhes roubar a terra, levaram também a saúde e costumes, conforme noticiado durante a semana, onde jovens mães Yanomamis não puderam ter seus filhos dentro da própria tribo, por conta do agravado estado de desnutrição e outras enfermidades que lhes acometiam, sendo assim removidas para maternidades.

O nome para isso é extermínio, exatamente como ocorreu com os indígenas americanos, a que fez referência o Governador Antônio Denarium (a propósito, sugestivo sobrenome que em sua origem, significava “dinheiro”). Lá, o branco invasor tirou-lhes a terra, aculturou sua gente até que não existissem mais, e (ao que parece) o projeto intentado por aqui pelo governo Bolsonaro (apoiado pelo “Senhor Dinheiro”) era, se não igual, bem parecido. Não fosse a vontade do povo brasileiro expressa através do voto, e a mudança de paradigma empreendida pelo Presidente Lula, que criou o Ministério dos Povos Originários lhes oferecendo voz e representatividade, o pior teria se consumado certamente.

E foi graças a essa nova visão e cuidado que houve tempo de salvar os indígenas daquela tribo, em um verdadeiro esforço de guerra que vem repercutindo internacionalmente. Por conta dessa repercussão que conheci Cunhatã e Curumim, servindo de inspiração para esse Artigo. Seus nomes? Realmente não os conheço, mas a imagem que ficou gravada em minha retina (e mexeu profundamente com minhas convicções) foi da pequena Cunhatã – uma indiazinha ainda criança – protegendo com um abraço seu irmão menor – o Curumim – dentro de um helicóptero que os resgatava, levando-os para o socorro médico.

O medo estampado nos olhos daquelas crianças, engolidas por aquele bicho grande, que faz barulho e voa, só não era maior do que a força ancestral do seu povo que sempre lutou pela própria sobrevivência, e assim o continuará fazendo, tão logo os invasores sejam expulsos de suas terras, e a autonomia e liberdade para viver sua cultura e costumes lhes sejam devolvidas.

E para aqueles que ainda pensam que tudo que foi mostrado pela imprensa, resume-se a mais uma ação humanitária de combate à fome, fica como reflexão as palavras do professor Mundurucu, que resgatam a essência da alma e da cultura indígenas: “É por isso que não basta dar alimento apenas ao corpo, é preciso também alimentar a alma, o espírito. Sem comida o corpo enfraquece e sem sentido é a alma que se entrega ao vazio da existência.”

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