Sobre “Escolas que são asas”

Rubem Alves assim as define “Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são pássaros em vôo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o vôo, isso elas não podem fazer, porque o vôo já nasce dentro dos pássaros. O vôo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado.” Então alguém pode estar se perguntando: de onde esse sujeito tirou essa ideia? Simples e bem objetiva a resposta. Das salas de aula por onde passei, e das escolas por onde andei, pois tudo que não vi por lá, foi justamente aquilo que meu dileto autor tão bem definiu em sua epifania educacional.

Culpa da Escola? Talvez. Culpa dos colegas “ensinantes”? Possivelmente. Mas a proposta aqui não é apontar o dedo na cara de quem quer que seja, ao contrário, propor uma reflexão sobre o problema para, quem sabe, encontrar uma solução.

Um primeiro ponto que deve ser entendido é a visão política que se tem sobre a Educação, pois já há muito tempo que ela é tratada como apêndice de Programas de Governo, e não como Politica de Estado, bem como uma despesa incômoda e desnecessária, e não como investimento de longo prazo. Por esse motivo, ouvir um gestor do MEC afirmar que ela deve ser tratada como investimento, como o fez o Senhor Ministro, Camilo Santana, além de alvissareiro, é de um ineditismo histórico.

Acreditando que tal pronunciamento não se deterá apenas na narrativa, vamos ao passo dois: discutir com os entes do pacto federativo – União, Estados e Municípios – os caminhos a serem seguidos. E aqui não cabe falar em modelos, pois isso significaria tentar enquadrar em um 3X4, uma foto panorâmica representada pela diversidade cultural e social desse país. Pensando apenas em Minas Gerais, por si só esse é um lamentável equívoco (que infelizmente é realidade na Rede de Ensino pública) já que de Norte a Sul, de Leste a Oeste do estado não se encontrará um padrão que possa ser adotado.

Dados os primeiros passos, necessário é reconhecer que educar é um processo construído na linha do tempo, que não dá saltos, e que não apresenta resultados imediatistas, por isso a recorrente análise e construção de indicadores educacionais, desconectados de uma série histórica capaz de construir um diagnóstico realista, que seja suficiente para produzir um prognóstico com a solução dos eventuais problemas, é repetir o erro da manipulação política de dados, com fins políticos e eleitoreiros, que só fazem agravar as severas distorções entre as Redes públicas e privadas, e entre os municípios e estados brasileiros.

Então, existem mesmo essas tais “\Escolas que são asas”? É possível construí-las em um país de dimensões continentais, e tão diverso por si mesmo, como o nosso?

Me valendo das palavras de Ariano Suassuna, sou um realista esperançoso, por isso a resposta a essa pergunta é sim. E o primeiro obstáculo a ser vencido é rever o processo de formação docente no Brasil que é caduco e ensimesmado, desconectado das realidades regionais, analfabeto funcional no que diz respeito às Metodologias de Ensino e Avaliação, e o mais grave – é um sistema de ensino superior que não forma professores, mas sim entrega “ensinantes” que vão disputar uma vaga nas redes públicas da Educação Básica, em oposição a uma seleta casta de futuros pesquisadores e doutores que vão alimentar o sistema, retornando para a Academia como docentes sem nunca terem vivenciado experiência outra que não fosse a do estágio curricular obrigatório, não conhecendo, portanto, a realidade da escola pública do país.

Feito isso é necessário (RE)ver a infraestrutura que as escolas públicas oferecem aos estudantes brasileiros, deixando claro aqui que existe um abismo a separar as redes privadas e públicas. E buscar essa equalização é uma grande sandice, quando não uma perda de tempo e dinheiro, visto que a estrutura dessas escolas, seu público-alvo e as demandas por ele exigidas são totalmente diversas daquelas dos da Rede pública. O que se deve fazer então é oferecer o necessário para viabilizar a qualidade do ensino oferecido, esse é o ponto.

E vale destacar aqui o grande equívoco que tem se construído quando o assunto é tempo integral na Rede Pública. Primeiro porque a maioria dos gestores não sabem nem a diferença entre Educação Integral e Educação em Tempo Integral. Segundo porque o modelo apresentado é meramente compensatório (contraturno) ao invés de ser humanista e formativo, deixando de lado as necessidades de um grande número de jovens, que não tendo a menor condição de passar o dia todo em uma sala-de-aula, por terem que trabalhar para reforçar o orçamento familiar simplesmente abandonam a escola, e seus sonhos. Há muito que se avançar e repensar no que diz respeito a esse tema.

Portanto, ensinar a voar é oferecer autonomia, protagonismo, oportunidades e perspectivas para o aluno. Se isso é possível em um país tão diverso quanto o nosso? Sim, ratificando minha opinião já expressa algumas linhas acima. E ouvindo a declaração do Senhor Ministro sinto um sopro de esperança, um sinal de que algo vai ser feito em prol daqueles que mais necessitam, e que buscam uma formação que lhes ofereça perspectivas reais de mudança, e não apenas um diploma para ser emoldurado e pendurado na parede da sala. Educação é coisa muito séria, por isso nunca vou cansar de repetir, não é para oportunistas nem tampouco para politiqueiros – “Educação é pra quem Conhece”.

Deixe um comentário