Tudo me é lícito, mas será mesmo que tudo me convém?

O escritor francês André Gide, já no século passado, afirmava que a “A liberdade é difícil de se alcançar, mas o que fazer com a liberdade é muito mais difícil.” Em tempos de excessivas licenciosidade e expressão essa advertência torna-se mais relevante do que nunca, e exemplos disso não faltam – nos relacionamentos e na vida em sociedade, mas também nos movimentos sociais e reivindicatórios – por isso não dá para esquecer do último dia 08 de janeiro. “Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas convêm”, já dizia essa passagem bíblica há mais de 2000 anos.

Falando de vida em sociedade, as novas gerações já nasceram e estão sendo criadas dentro de um paradoxo conceitual, pois se para os da minha época (e os que vieram antes de mim) a Liberdade era apenas uma figura de retórica, e o Respeito (tantas vezes confundido com o temor) era a regra, hoje nossos jovens e crianças perderam a noção do segundo e ressignificaram a primeira – como disse Gide, saber o que fazer com ela, é muito mais difícil do que alcançá-la.

E aqui a discussão fica mais interessante, pois não dá para dissociar um e outra, isso porque fazendo uma análise etimológica dos dois vocábulos, o primeiro deles – Liberdade – tem como sentido mover-se sem amarras, sem restrições, ter autonomia. Enquanto o outro – Respeito – significa olhar ao redor, prestar atenção ao redor. Portanto, olha só que coisa reveladora, para ser livre tenho que olhar ao redor, prestar atenção naquele que cohabita meu espaço de interação social, sob o risco de (não o fazendo) invadir a privacidade de outrem, ou cercear suas possibilidades de expressão.

Como consequência disso, muito se fala hoje em respeito às liberdades individuais, mas com um olhar míope e enviesado dessa ação, que pressupõe somente o cuidado com as minhas necessidades e vontades, desconsiderando o princípio existencial de que não somos uma ilha, negligenciando, assim, o fato de que minhas ações e movimentos podem incomodar o vizinho ao lado.

Volto então a questionar: já que tudo me é permitido, será mesmo que tudo me convém? Gostaria de ouvir a resposta a essa pergunta da boca dos brasileiros e brasileiras que estão hoje privados das suas “liberdades” nos presídios de Brasília, como consequência dos atos cometidos no último dia 08 de janeiro, sob a égide de uma defesa contumaz da nação (em grave risco), embasados pelo “livre direito” de expressar-se, tantas vezes repetido por aquele que fugiu do campo de batalha, ao menor sinal de fumaça (sem intenção declarada de voltar).

Isto posto, poderia parecer aos mais desatentos que os desatinos, a falta de juízo, a destemperança e falta de limites seriam características das gerações anos 90, dos Millenium, Z e Y, mas na Papuda e na Colmeia, salvo melhor juízo, temos apenas adultos, senhoras e senhores, em sua grande maioria contemporâneos desse que lhes escreve, ou de gerações ainda mais longevas. O que leva a constatação de que o problema então não está na educação moral, cívico e religiosa que, em tese, asseguraria a formação de indivíduos que têm clareza das responsabilidades sobre suas ideias e opiniões, de maneira respeitosa e civilizada, mas sim na forma como se faz o uso dessa “livre expressão”, conferida a cada um de nós.

O Brasil tem uma história longa (e nem sempre bonita) de luta em defesa da Liberdade, e somente graças a isso que hoje é permitido a jovens e adultos, homens e mulheres, negros e brancos, de esquerda ou de direita a prerrogativa de manifestar e defender suas ideias. Mas como a todo direito existe um dever correspondente, a consequência por nossos atos e escolhas sempre vem. Depois de tudo que temos visto e ouvido na TV e nos noticiários, talvez seja a hora de repensar não as garantias às liberdades, mas o modo como ensinamos nossos jovens, e também os adultos, a fazer o (bom) uso desse direito universal que lhes foi concedido, pois, apesar de lícito nem tudo às vezes é conveniente.

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